Um pequeno engano - conto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


UM PEQUENO ENGANO

I

Chegou um pouco atrasada ao
restaurante. Ele ainda não tinha
chegado. Estranhou. Geralmente era ela
que se atrasava. Os olhares
voltaram-se na sua direcção. Não que
fosse excessivamente bonita ou
tivesse a braguilha aberta. Nem sequer
estava de calças e tinha o nariz ligeiramente
torto e o rosto demasiado comprido.
Um conjunto que
lhe dava um ar ligeiramente equíneo
mas que não deixava de ser
interessante. Sobretudo a maneira
como atirava a cabeça para trás
quando desafiada tornava-a atraente.
Mas não foi pelo
seu vestido estampado nem pelos
seus bonitos olhos castanhos que o
restaurante virou a cabeça. Nem tão
pouco pelo brilho mais acentuado do olhar,
na expectativa de encontrar o
homem que amava há mais de um
ano. Mais ou menos discretamente,
todos os comensais sem excepção
a olharam, porque naquela terra todos
se conheciam. E, quando não conheciam,
tratavam de procurar imediatamente
informações. Síndroma de uma terra
onde a comunidade expatriada era pequena
e vivia virada para o umbigo.
Lá teve de cumprimentar dois ou três,
incluindo um chefe de serviço
incompetente e uma hipócrita
benfeitora da Obra das Mães. Na rua
sempre se podiam evitar. Quando se
esquecia das lentes de contacto nem
fazia de propósito... mas ali não
havia nada a fazer. Felizmente
conseguira uma mesa num canto
discreto.
Que horror! Ia ter ficar ali uma eternidade,
nem que fossem só cinco minutos, à
espera dele. E ela que chegava sempre
educadamente atrasada como compete
a uma senhora. Logo hoje ele,
que era senhor de uma pontualidade
britânica, se atrasara. Precisamente
quando tinham combinado naquele
antro de víboras.
Ali ficou, a barrar a
manteiga o mais devagar possível e
a contemplar as lutas que o dragão e
a fénix travavam no prato da sopa, no
do peixe e no da carne. Enquanto os
minutos passavam ia afiando as suas
próprias garras e preparando a
língua de fogo para o embate.
Meia hora! À medida que o branco seco
desaparecia do copo a sua garganta
ia ficando igualmente seca e a
pele ruborizada, não pelo álcool mas
pela fúria .
Já não conseguia pensar em nada nem
ver as penas azuis da fénix ou as
escamas do dragão. Nem via que a faca manchara de
gordura a toalha de linho, após um
movimento brusco. Só conseguia
arquitectar o lhe ia dizer, talvez
gritar, assim que chegasse. Não,
gritar não, só aumentaria a
evidência da sua humilhação. Ia-lhe
falar baixo em tom grave e seco como
gelo. Ia-lhe queimar o ego com as
palavras mais frias que já alguma
vez lhe dissera, desfazer-lhe a
auto-confiança de homem vivido em
alguns segundos.
Resolveu por fim pedir um consomé de
raiva e um salmão embrulhado em
papillot de angústia. O vinho
transformara-se em vinagre mas bebia-o em
goladas cada vez mais frequentes para
temperar o fel que a queimava por
dentro.
Estava-se geralmente lixando para
aquela corja de funcionários
públicos lambe botas, professorecos
armados em doutores,
jornalistas mexeriqueiros e
advogados corruptos, mas não
conseguia evitar sentir-se
humilhada. Pensavam "Olha a Lena
caixa d'óculos, deram-lhe a
banhada". Ou então comentavam: " O
namorada daquela deve ter-se perdido
pelo caminho", aludindo aos mal
afamados corredores do Hotel Lisboa, onde
ficava o restaurante. Os menos
frustrados, aquelas que nunca tinham
invejado o seu belo par de pernas ou
aqueles que não haviam cobiçado, em
vão, uma noite com ela, lamentavam:
"Coitada". Essa ideia ainda a irritava
mais, quase até as lágrimas que
reprimia enquanto tentava engolir o
peixe que se recusava a nadar do nó
da garganta para baixo.
Respirou fundo e disposta a levar o
seu martírio até ao fim, como se
nada fosse, ordenou uma Serradura.
Era assim que tudo se ia desfazer.
Como serradura, em pó. Afinal era
tudo mentira, ilusão. O grande amor
da vida dela. Que treta! Ia-lhe
atirar à cara todos aqueles pequenos
defeitos que dantes achava que não
valiam a pena referir. O ressonar suíno
que não a deixava adormecer. E aquele altinho
atrás da orelha que ela achava tão
horrível, como se fosse uma
deformidade, e que ela evitava
olhar. E o perfume adocicado que ele
usava, demasiado
feminino...
Ou talvez o melhor fosse ignorá-lo.
Quando ele tentasse telefonar-lhe
com qualquer desculpa tola,
desligar-lhe-ia o telefone na cara.
Como se não pudesse ao menos ter
telefonado para o restaurante...
Afinal a
indiferença é a melhor forma de
desprezo...
Entre a múltiplas e contraditórias decisões de o matar e de o esquecer, pediu um café, sem açucar, e saiu de
sorriso na boca, um esgar amargo, para
os comensais conhecidos.

II

Ele esperava a Lena, que chegava sempre
atrasada mas que naquela noite
estava a exagerar. Não estava em
casa, ele já tinha telefonado.
"Se calhar estou no banho e o
piriquito ainda não aprendeu a falar
português. Deixe uma mensagem por
favor", ouviu pela enésima vez, não
sem um sorriso. Lá sentido de humor tinha
ela. O pior era quando se irritava.
Mas quem ia virar os pratos naquela
noite era ele. Meia hora, começava a
passar dos limites. Ou ela comprava
um relógio de pulso com despertador
ou então um telefone portátil. Assim
ele poderia raptá-la da diferente
dimensão temporal
em que ela vivia. E sempre a podia
controlar melhor... Não acreditava que
a Lena alguma vez o tivesse traído,
mas sabia que estava bem quotada
entre os machos da terra apesar
daquele nariz torto, (no fundo até
lhe dava mais charme). Convém que um
homem nunca seja o último a saber,
pensou, enquanto imaginava a cena que
ela faria se o estivesse a ouvir. Mania dos
feminismos... o melhor é fingir
que sim e que também, para ver se
elas se calam.
As suas entranhas soltaram um
rugido. Assegurou-se de que não era a sua
consciência a mostra-lhe
que era demasiado
chauvinista. Não. Era apenas o estômago a
protestar ao fim de três whiskies a
seco. Espreitou os pratos nas outras mesas. A comida tinha um ar misteriosamente oriental. Porque é que ela marcara ali se detestava cozinha chinesa?
No restaurante havia
sobretudo chineses, fora dois casais
brancos. Brancos? Isto é um bocado racista. Mas se nem sei se são portugueses ou ingleses, que lhes chamo? Caucasianos, como nas séries policiais americanas? A fome estava decididamente a fazê-lo pensar demais...
Só conhecia uma mulher, de
vista. Esta não lhe tirava,
precisamente, a vista de cima desde
que entrara. Discreta mas
repetidamente mirava-o com um olhar
de apreciação. O que é que lhe
agradaria? A pele bronzeada, o ar
desportivo e displicente de quem
não se rala muito com nada? Carlos
tinha a certeza que eram os seus
olhos verdes, os seus cabelos
revoltos e a muita confiança em si,
que sobressaiam. O homem que estava à
frente dela não dava por nada, estava
de costas e nunca se voltou. "Deve
estar demasiado absorvido no que ele
próprio está a dizer", pensou Carlos,
sem lhe passar pela
cabeça que poderia dizer o mesmo de
si próprio na maioria das ocasiões.
E ela o que quereria com aquele
descaramento todo? Seria
colombiana ou uma das muitas russas?
Não... demasiado bom
gosto. Cabelo escuro, liso, num corte
geométrico, olhos grandes, vestida
com requinte discreto. Até que gostaria de
experimentar... mas, não. Era
incapaz de trair a Lena. Não
propriamente incapaz, mas era
demasiado perigoso, podia vir a
saber-se e era melhor evitar chatices.
Além disso, ela, apesar daqueles
atrasos imperdoáveis e do mau feitio,
não merecia tal sorte. Era um bombom, a sua
Lena, quando bem levada.
No final do quarto whisky desistiu de
esperar. O que é que o empregado
pensaria, interrogou-se enquanto
pagava a conta. Que se lixasse. A
desmiolada devia ter-se perdido à
conversa com alguém. Ou talvez
tivesse tido um furo na ponte.
Esperava que sim, era bem feito. E ela
que nem sequer sabia mudar um pneu. O
melhor era ir para casa e esperar para
lhe pregar um sermão.


III

Nas ruas do Lisboa as prostitutas
chinesas multiplicavam-se como
amibas. Nas salas de jogo, no coffee
shop, no hall... É a localização do
sector do turismo, sorriu Lena. Era
a vez das locais fazerem frente às
tailandesas, eslavas e afins. Não
eram bilingues (condição preferencial para
a localização dos funcionários públicos)
mas tinham a língua e
tudo o resto nos mesmos sítios. Um
bocado enjoada com os eflúvios
baratos que se soltavam das
mulheres por que passava saiu para
a humidade estival. A raiva ainda
não tinha passado. Estava apenas em
banho maria. Resolveu ir beber um copo
para digerir a angústia do jantar.
Talvez encontrasse aquele filho da
mãe e lhe pudesse gritar tudo aos
ouvidos.
Estava uma banda filipina a tocar no bar do
costume, cheio de estrangeiros. A
invasão semanal de 'bifes', comentou
para si, amarga.
Depois dos olás da praxe deixou-se
ficar a um canto a ruminar vinganças
cheia de auto-comiseração e de
branco. Ia no segundo copo quando se
aproximou um estrangeiro.
Era charmoso e tinha sentido de humor.
Mais ou menos, já não se lembrava bem. Era irlandês ou escocês? Pelo menos era bonito, lembrava-se das feições adormecidas, quando deixara o quarto da Pousada de Coloane.

IV

Sentiu um perfume intenso, doce. "Guapo, és de Macau?", perguntou-lhe uma voz alegre, vinda de atrás. A conversa continuou, em castelhano, numa tasca de chau min, na Praia Grande. Não foi, portanto, o estômago que roncou quando ela lhe propôs voltarem ao hotel. Foi a consciência, "essa puta". Calou-a com mais um whisky. E depois ela era bela. Tão bela como a madrugada. Quase tão bela como a mulher esfíngica do restaurante. Não fora o cabelo tingido...

V

Ela tocou-lhe à campainha de manhã cedo, arrastando as olheiras e o vestido amarrotado pelos degraus. Ele acordou de um pesadelo com touros e leques, a suar. "Onde é que te meteste meu filho da mãe?". Ele rebateu, já bem acordado: "Onde é que tu andaste? Estive a noite inteira à tua espera naquele estúpido restaurante chinês". "Chinês? Qual chinês? Então não tínhamos combinado encontrar-nos no Portas do Sol?"
A fúria esmoreceu aos poucos. Deitaram-se cansados, sem mais perguntas inúteis.
Fora um mero engano. Uma noite de enganos.


FIM