Nota à comunicação social sobre corrente humana da «Macau por Timor»

Sinopse para vídeo institucional

Texto do catálogo da exposição «Chinuances» de Jorge Costa

 

 

MACAU POR TIMOR:
CORRENTE HUMANA NA PONTE NOBRE DE CARVALHO

Macau, 15 de Setembro – Uma corrente humana ligará Macau à Taipa através da Ponte Nobre de Carvalho no dia 24 de Setembro, sexta-feira, às 18 horas, numa alusão à ligação de Macau a Timor Leste nestes dias de angústia. Lenços brancos serão atados às grades da ponte.

Macau por Timor pede a colaboração de todas as comunidades do território para esta iniciativa.
Quem desejar participar terá apenas de se alinhar ao longo da ponte do lado direito (a partir de Macau), atar o lenço branco, que deverá levar consigo, e dar as mãos.

Pede-se também às pessoas que, se possível enverguem pelo menos uma peça de roupa de cor branca, que se tornou a cor da solidariedade para com Timor Leste.

Macau por Timor está a preparar outras iniciativas que visam angariar fundos para a reconstrução de Timor Lorosae, uma terra em que neste momento está a decorrer um genocídio perpetrado pela Indonésia enquanto as palavras de políticos e diplomatas adiam a intervenção de uma, já aprovada, força de paz no território.

O massacre dura desde 1975, ano em que a Indonésia invadiu Timor, e tomou proporções de genocídio total depois do anúncio dos resultados do referendo do passado dia 30 de Agosto, em que a 79.5 porcento da população escolheu a independência em relação ao país ocupante.

 

 

Recortes da memória de uma terra feliz

Quando cheguei a Macau, há uma dúzia de anos, descrevi assim a terra a um amigo de cá: a areia é preta, o céu branco, o mar sépia e o sol vermelho. Ele lamentou a minha sorte por tais confins de aberrações cromáticas. Não conseguia, como eu, sentir a beleza da composição envolta na suave humidade, com estrondo de panchões por fundo e o colorido das festas como enfeite.

Apesar de ter deixado Macau há já algum tempo, o Jorge Costa não se esqueceu da ambiencia tão especifica daquela terra que retrata nesta exposição, tanto nas aguarelas inspiradas na técnica chinesa do recorte, como nas telas em acrílico. O que o inspira é ainda o calor húmido que se nos entranhou para sempre na pele, tal como as cores do Ano Novo Lunar o fizeram na memória ou as amizades multiculturais na alma. Mas são sobretudo todas as nuances das festas populares - a queima dos papeis para os mortos, o sabor pastoso dos bolos lunares, o fumo dos pivetes, as mil luzes das lanternas e o ribombar dos foguetes - que estão presentes nas coloridas telas do Jorge.

Nascemos no Ribatejo, em Lisboa ou em qualquer povoação lusa, mas, depois de vivermos naquela terra, somos sempre de lá.

Há dor nisto, na separação do lugar que amamos, mas, no caso do Jorge, há sublimação - há o recorte da memória do melhor que sentimos, o recorte do amor por aquele espaço e aquela cultura que integrámos.

Nestes recortes a tinta da china e aguarela o que mais me impressiona são as montanhas.

As montanhas mágicas de Gueilin ou as montanhas-ilhas que salpicam a viagem de Macau a Hong Kong, carecas, semeadas de casas ou artificialmente povoadas de plantas que, fora de controlo, tragam tudo o que se esquece ao sol.

Estas aguarelas recortam o labirinto dos trilhos de Coloane, com o seu "Ponto de Vista" original. Ou as faces escalavradas das ilhas de São João e Montanha, explosões de pó que se estendem em aterros, a natureza domada e desmistificada, sujeita, para que o progresso venha, enquanto o sol vermelho assiste, eterno, às mudanças da paisagem resultantes da luta que o homem e a natureza travam.

Ou terão sido quadros tirados das colinas da Penha e da Guia, com a cidade aos pés?
Todas estas montanhas e afins estão recortadas nos quadros do Jorge, labirínticas, misteriosas, carregadas de sentidos por descobrir. E se um recorte é, por definição, definido, aqui torna-se abstracto.

Menos obscuro é o recorte dos meninos que brincam, das figuras humanas e animais, redondas e felizes, como o são, na sua singeleza, esses quadros.

O Jorge captou as nuances de cor das paisagens do sul da China e todas as cambiantes das honras feitas a Há Ma, ao ano da Cabra, à nova lua do Outono ou às almas dos que partiram para outro mundo e, com muito respeito, algum humor e muita ternura, interpretou-os nestas telas que agora nos oferece. Numa época de conflito e sofrimento, o calor que nos trazem estas imagens simples é uma panaceia para os sentimentos conturbados a que o presente nos obriga.

Lisboa, Abril 2003
Clara Gomes