Sabem os ratos e as traças onde andam os artigos que escrevi antes de ir para Macau... os computadores, nesses tempos, eram grandes monstros escuros que de vez em quando nos mastigavam os dedos, à maneira do Naked Lunch do Burroughs. Aqui estão uns textos mais recentes. Não editados.

 

Nova Iorque: the show must go on!
Notícias Magazine, Outubro 2001

O museu de Beate Huhse: o erotismo e a história
Umbigo, Setembro 2002

Amazons From Outerspace: o sexo na ficção científica
Umbigo, Março 2003

Pé de lotus pé de cabra: a histórica perversão
Umbigo, Dezembro 2002

Robert Mapplethorpe
Entre a Pornografia e a Arte

Umbigo

Pêlo sim pêlo não
Umbigo

É para o menino e para a menina!
Umbigo

Destricted – Sem restrições
Umbigo

João Galante – Mistermiss
Umbigo

 
 

Nova Iorque : The show must go on!

21 de Outubro 2001
Clara Games


Nova Iorque, meio-dia e meia de domingo, 7 de Outubro. Turistas apinham-se de câmara em riste e tremem a foto com o empurrão do lado, seguranças gritam que desimpeçam a passagem, policias impedem os curiosos de passar as barreiras, vendilhões apregoam quinquilharias alusivas ao acontecimento, uma excursão de provincianos com crachás a dizer "Oregon" entope as ruas. Não, não são os Oscares nem os Emmys - estes adiados pela segunda vez nesse dia - nem sequer uma feira. Mas é um ambiente de feira que se vive à volta do chamado Ground Zero, o local afectado pela derrocada das torres gémeas, na precisa hora em que começam os ataques americanos e britânicos contra alvos afegãos.
Numa loja, um dos voluntários que ajudam a remover os escombros irrita-se com um turista que compra um rolo de fotografias. "Vamos a despachar. Alguns de nós têm trabalho para fazer". Como não recebe resposta, desqualifica o estrangeiro, dizendo, "se calhar nem fala inglês...."
Porém, para além dos voluntários e bombeiros, irritados por dias seguidos a respirar o pó de cimento que após várias semanas ainda faz tossir, poucos se revoltam contra este ambiente de festa. Afinal, as excursões do Oregon, Tennesse e Seattle que nesse dia vêm admirar a falta do ícone gémeo, são apenas uma resposta ao apelo do Mayor, para que o país não deixe o terrorismo acabar com o turismo na Big Apple. A América é bem conhecida pela capacidade de se reinventar: ao terrorismo Nova Iorque responde com o consumismo.
Nas ruas à volta de Central Park, na Times Square, no coração da Broadway, no Ground Zero, as Twin Towers estão no top de vendas, seja em forma de aguarelas, fotos, almofadas, t-shirts ou simples reproduções que variam de escala, de um metro a um centímetro, para todas as bolsas, numa lógica democrática do mercado de consumo.

O segundo produto mais vendido é a bandeira ou qualquer item que a inclua. Lacinhos tricolores, semelhantes aos da campanha de prevenção da Sida, são vendidos nas esquinas por chineses, em quiosques por negros ou nas lojas dos indianos, paquistaneses ou hispânicos. T-shirts com a stars and stripes como fundo marcam a data, lamentam as vítimas, enaltecem os heróis, incitam à união dessas raças, etnias e culturas que constituem o pot nem sempre tão melting como seria de desejar, daquela que se diz capital do mundo.
Por toda a cidade, nos apartamentos, nas entradas dos arranha céus, nos restaurantes e lojas, nos autocarros e automóveis existe, pendurada ou afixada, alguma forma de bandeira, de papel, pano, autocolante, transparente, pequena ou descomunal.
Em Lower Manhattan, perto do Ground Zero uma loja de jeans não tem bandeira na montra, nem sequer montra. Esta partiu-se aquando da derrocada das torres. No entanto, o proprietário, de máscara de gás na cara, mantem a porta aberta, exibindo as roupas nos cabides e prateleiras, cobertas de uma espessa camada de pó. "É para que as pessoas possam fotografar os efeitos da tragédia... para que não se esqueçam", ouve-se-lo explicar, por sobre o clicar das máquinas fotográficas.
Em alguns automóveis e jeeps, uma outra imagem se vem juntar à bandeira: um póster com a cara de Bin Laden encimado pela palavra Wanted à maneira dos westerns.

Murais de esperança e dor

Mas não se pense pelo póster de mau gosto que vingança é a palavra chave dos vários murais expontâneos que surgiram por toda a cidade.
Estes integram fotos dos desaparecidos, muitos da Cantor Fitzgerald, talvez a empresa que mais funcionários perdeu, por entre dedicatórias, cartas, poemas e muitas bandeiras nacionais. "Alguém viu esta mulher?" perguntavam esperançados os primeiros textos afixados. Dias depois quando os desaparecidos se transformaram em baixas as linhas passaram a "em memória de...".
À volta das ruas fechadas onde os camiões continuam a remover o entulho de onde ainda sai fumo, as paredes revestem-se de linhas pungentes, escritas por alguém que perdeu o marido, o filho ou por exemplo o seu melhor amigo, com uma foto deste enquanto criança. Ao lado, um poema pacifista.
Na bela Grand Central Station, cujo ambiente de templo, a meia luz, coincide com o espírito do momento, um mural recorda muitos dos que morreram. "É para que não os esqueçamos, mas também para que consigamos continuar a vida", comenta uma mulher negra, de meia idade que nos diz ter perdido uma amiga no ataque.
Mas por perto, fanáticos e seitas aproveitam a deixa para falar de morte. "O fim está próximo. O diabo vem aí!" apregoa um velho demente, agitando uma foto das Twin Towers na mão, ignorado pela multidão cansada, depois de mais um dia a exercitar a máxima capitalista do "no pain, no gain" nos escritórios de Manhatan.
Mais à frente, outro homem distribuí panfletos onde se lê: "Já pensou na coisa mais importante da sua vida?". A resposta, ao virar da página: "A eternidade é bela"...

A Liberdade encerrada e a igualdade diferente

Nestes tempos pós ataque o mais próximo que se consegue chegar do mais famoso ícone da cidade é através do ferry para Staten Island - é que o ferry para a Estátua da Liberdade está parado, "por questões de segurança" informa-nos um agente de azul, da NYPD.
Esta ironia da Liberdade está fechada por questões de Segurança faz-nos pensar na preocupação expressa por algumas camadas da população. "Consigo compreender que toda esta situação nos cause algum inconveniente e acho que temos que ter paciência. Mas uma coisa é um inconveniente temporário, outra, o aproveitar do pretexto para limitar os nossos direitos civis", dizia uma comentadora política no canal televisivo publico da cidade de Nova Iorque.
Alguns media - mais os alternativos que a CNN e afins - ecoam esta preocupação. "Um homem de origem árabe foi detido durante seis dias sem que a família tivesse sido informada do seu paradeiro", notícia uma estação televisiva.
As notícias de árabes ou mesmo de não árabes confundidos como tal, atacados ou assassinados nos EUA revoltam muitos dos habitantes da multicultural Nova Iorque. Um dos perpetradores destes chamados "crimes de ódio" é um luso-americano: num raid pela localidade de Mesa, perto de Phoenix, contra várias habitantes que julgou serem árabes, Frank Silva Roque conseguiu matar um indiano de religião sikh.
Foi talvez a consciência da falta de compreensão de outras culturas que caracteriza os americanos em geral (mas não os Novaiorquinos em particular) que levou à criação de slogans como "Don´t Divide, Unite", depois do ataque ao World Trade Centre. Empresas como, por exemplo, a AT&T aproveitaram a deixa. No longo anúncio televisivo da companhia de telecomunicações, pessoas de várias raças e etnias em diferentes cidades do mundo afirmam orgulhosamente "I'm an American".
A já gasta bandeira do "todos diferentes todos iguais e unidos" ganha novas cores e os mainstream media agitam-na no ar. Mas muitos dos habitantes de Nova Iorque não lhe batem continência. Na azafama do dia a dia da metrópole, a desigualdade e bem notória: os negros fazem os trabalhos braçais e abrem a porta das empresas e apartamentos de luxo do Upper Eastside a executivos brancos de fato ou saia casaco. A segregação racial que se transformou numa segregação económica é uma realidade demasiado presente na vida da cidade.
Nem a noite esbate os contornos de uma identidade americana forjada na desigualdade.
Ás quatro da manhã se Sábado um casal branco atravessa uma das ruas de Greenwich Village ébrio. O automóvel de um casal negro trava quase em cima do casal ziguezagueante. Discussão e invectivas daquelas muito popularizadas pelo rap. O rapaz branco de ar tradicional e rufião é o mais violento até que a rapariga negra puxa do chapéu de chuva. Saltam amigos de uns e de outros de dentro do restaurante onde assistíamos a este filme urbano e correm em respectivos auxílios. O dono do restaurante treme. Por fim, surge um polícia, felizmente não muito branco nem muito negro, talvez hispânico. Por fim os ânimos acalmam-se e as partes desavindas entram no restaurante, onde os negros se sentam ao fundo e os brancos perto da janela... Não conseguimos ouvir o que os acalmou, mas talvez o agente da lei lhes tenha dito o que Bush disse ao país num dos seus discursos: "neste momento de crise é preciso estarmos unidos e ultrapassarmos as nossas diferenças".
Lá fora, um pedinte de bengala e voz teatral expõe com humor aquele que é ainda um dos grandes problemas sociais da América de hoje: "cara senhora e excelentíssimo senhor: tiveram a sorte de ser seleccionados por este distinto membro da sociedade dos rejeitados: por apenas um dólar podem adoptar um preto sem casa (an homeless negro) por uma noite..."

A Village, a Unidade e a perda do espírito crítico

"Este é o melhor sítio do mundo para se viver", diz um fotógrafo profissional que toma um café num dos bares de Greenwich Village, que é o bairro dos artistas, do jazz e dos clubes, e um dos mais afectados pelas consequências do ataque. "Esta avenida foi cortada por causa do acesso aquele hospital", aponta. "Nem no Inverno quando neva muito e as ruas ficam geladas tinha visto isto tão deserto", diz, referindo-se de uma das zonas de maior animação nocturna da Village. Este homem de meia idade considera ter sorte por ter uma irmã em Cape Cod, para onde pode fugir, se necessário. "Alguns dos meus amigos que vivem aqui há 50 anos estão a pensar partir, mudar-se para longe de alvos estratégicos", acrescenta com alguma tristeza.
No jornal Village Voice, uma voz alternativa dos intelectuais de Nova Iorque um cronista conta a história dos pais de Greg Rodriguez, de 31 anos, que morreu no ataque ao World Trade Centre. "O nosso governo está a ir na direcção da vingança e nós não queremos participar nisso", afirmou ao Voice o pai da vítima. "Percebemos que o nosso filho estava a ser usado como argumento para matar pessoas, incluindo pessoas que nada têm a ver com isto". O casal enviou uma carta ao New York Times, ao presidente e a vários políticos, explicando que iniciar uma guerra que matará os filhos dos outros, que apenas acumularão rancor contra os americanos não era a forma de chorar o seu filho. O Times recusou publicar a carta e o casal não recebeu qualquer resposta de Bush, dizia o artigo do Voice.
No entanto, dias depois - mais precisa e ironicamente no dia em que começaram os ataques no Afeganistão - surgia no Times um anúncio de página inteira pela paz, contra a acção militar como vingança, pago e assinado pelos pais de Greg Rodriguez e por centenas de outros cidadãos, muitos parentes ou amigos de vitimas da tragédia de 11 de Setembro.
"Acontecimentos como este levam - por uma questão de protecção animal - à união, à tendência para que, aparentemente, se esbatam as diferenças sexuais, raciais e mesmo de perspectiva que fazem de Nova Iorque a cidade fantástica que é, o que pode ser perigoso", diz-nos um professor de história que encontramos num bar gay da Village.
"Quando jornalistas são despedidos por criticarem George Bush, professores ameaçados com o desemprego por comentários sobre a tragédia e artistas repreendidos por compararem os destroços das torres a uma obra de arte, o espírito crítico, tão característico de Nova Iorque está em causa", escreveu Richard Golstein numa crónica do Village Voice intitulada "O preço da Unidade" com o subtítulo: "o nosso maior perigo é tornarmo-nos iguais".
Ou seja, a união pode fazer não a força, mas a repressão.

Traumas e medo da guerra biológica

Mas se vozes pela paz e vozes críticas se vão fazendo ouvir a propaganda de estado convence muitos e silencia outros.
Nas conversas de rua que desenvolvemos toda a gente está solidaria com as vitimas mas ninguém tem pressa de dar uma opinião sobre o ataque ao Afeganistão.
Nos bares, cujos donos se queixam em geral, de uma grande diminuição da clientela, a conversa vai sempre parar à tragédia.
"Nas primeiras duas semanas isto esteve quase vazio. As pessoas preferiam ficar em casa a ver a televisão", conta um barman françês.
Noutro bar, o gerente queixa-se: "primeiro foi o choque, agora é o medo da guerra biológica.... se o negócio continua assim vamos ter de fechar".
"A minha mãe partiu as pernas a fugir da derrocada", conta-nos um cliente. Num café ouvimos dois amigos conversar. "Sabes que os meus pais tinham vôo marcado no primeiro avião que atingiu as torres? Foi uma sorte..." O amigo nem comenta a sorte.
No ferry para Staten Island um rapaz começa a falar com desconhecidos, americanos de outro estado, talvez para aliviar a pressão. "A minha colega do lado lá no escritório falou com o marido minutos antes do ataque. Ele morreu. Ela ficou com dois filhos pequenos..."
A tristeza é reinante e os psiquiatras (ou, em calão local, os shrinks) falam mesmo em trauma ou em "post-traumatic stress disorder" e aproveitam para sugerir algumas terapias em revistas como a Time Out ou pasquins femininos.
Neste ambiente é difícil abordar certos temas como, por exemplo, o chamado terrorismo de estado americano: a política de "oil for food" no Iraque que vitimou milhares de crianças, ou o bombardeamento de uma alegada base de Bin Laden, que afinal era um laboratório farmacêutico no Sudão, durante a administração Clinton. "Foi um erro, acontece", desculpa ao balcão de um bar um executivo, com uma visão bastante liberal acerca de outros assuntos, mas que, a partir daí, se recusa a continuar a conversa.
Qualquer crítica ao estado americano tão bem vinda anteriormente no ambiente intelectual da Village e numa sociedade com grande capacidade de auto-critica, cai em saco roto.
Entretanto num cybercafé recebemos o e-mail de um amigo americano com uma lista de sites que revelam informação sobre certas acções da CIA e do FBI. "Tenta abri-los já, se estás interessada. Estão a ser fechados", dizia a mensagem. Não conseguimos abrir nem um.
Não admira que os intelectuais americanos se preocupem com o que será feito da liberdade de expressão nos próximos tempos…

Broadway: the show must go on

No mundo do entretenimento, a mais rentosa indústria americana, há uma mudança de programa.
Na Broadway acontece o nunca visto: conseguem-se bilhetes para qualquer espectáculo, excepto o grande hit do momento: The Producers, o novo musical de Mel Brooks, com Mathew Brodrick. "Na semana a seguir ao ataque conseguiam facilmente bilhetes, mas agora vão ter esperar até Março", dizem-nos na bilheteira do St. James Theater. A peça é uma comédia, o género que nos cinemas substituiu todos os filmes de acção que fossem mais violentos ou que tivessem a mínima alusão a terrorismo.
As pessoas querem rir e divertir-se antes que seja tarde demais, depreende-se das noticias sobre a aumento súbito de casamentos. "Vão nascer muitos bebés daqui a nove meses", goza a empregada negra de um café, quando alguém fala no assunto.
Esta necessidade de gozar a vida antes que a desgraça se abata pode vir a salvar a bilheteira dos teatros e cinemas mas os artistas não deixam o assunto por mãos alheias. No dia 1 de Outubro juntaram-se na Broadway com Glenn Close à frente e apelam aos espectadores que os vão ver trabalhar.
Também o Mayor de Nova Iorque apelou aos cidadãos de todo o país que viessem até à Big Apple e elas vieram, em excursões da província ver o ícone desaparecido, ou melhor, o buraco que este deixou. "O Giulliani pensa que é o La Guardia, mas falta-lhe o bom senso e a humanidade", critica o tal professor de história. O presidente da câmara em final de mandato, ao contrário do Mayor dos anos 30, não é amado por todos: impôs leis aos bares e clubes, fechou muitos e é visto como uma figura repressiva, mas todos admitem que lidou bem com a crise. "Portou-se bem, mas é só mais um a tirar dividendos políticos da desgraça. Tal como os presidentes tiram das guerras que começam - se as ganharem...", deixa em suspenso o perito em história americana.

 

Um afegão em Nova Iorque

Ao contrário dos proprietários de outros restaurantes de Manhattan, Yousef Rojyi não se pode queixar que o ataque terrorista às torres gémeas no dia 11 de Setembro se tenha reflectido de forma negativa no seu negócio. Pelo contrário: os clientes antigos, adivinhando que o restaurante de comida afegã seria provavelmente descriminado por algumas pessoas, vieram mais assiduamente do que de costume e trouxeram amigos. Um exemplo de como a diversidade cultural de Nova Iorque se traduz, é certo, em ghettos e discriminação económica e social, mas também em solidariedade.

A Afghan Kebab House na 9ª Avenida festejou recentemente o seu 20º aniversário com Yousef Rojiy à frente do negócio que o seu pai começou pouco depois de toda a família ter conseguido fugir do Afeganistão, em 1979. "Foram três meses muitos duros nas montanhas. De dia tínhamos que nos esconder dos helicópteros russos e só de noite é que podíamos avançar. Por fim conseguimos chegar ao Paquistão e depois aos EUA", recorda o restaurador, originário de Mazar -i - Sharif, uma grande cidade do norte do país que está sob o poder da Aliança do Norte.
Trabalha das nove da manhã à meia noite enquanto a mulher toma conta da casa e educa as duas crianças do casal. "Ela queixa-se de que eu nunca estou em casa, mas a vida aqui é assim, isto é uma cidade de trabalho", diz o afegão que ficou espantado quando viu a cidade mais activa do mundo parada, a seguir ao ataque. "Ainda não fui lá a baixo", diz referindo-se ao local onde restam os escombros das torres, "não consigo... eu e minha mulher ficámos muito chocados, afinal esta também é a nossa terra".
Nem o restaurante nem a sua casa foram objecto de qualquer atentado "os vizinhos já nos conhecem há muitos anos e sabem que somos boa gente", justifica o proprietário. Mas pelo telefone vieram mensagens pouco dignas. "Nos primeiros dias recebi muitas ofensas e ameaças", conta, afirmando que não teve medo. "As pessoas estavam tristes, talvez fosse uma maneira de expressarem a sua frustração", explica.
Para compensar, os clientes amigos, temendo que a Afeghan Kebab House sofresse por servir comida do país que, de repente, tinha passado a ser inimigo dos EUA, trouxeram mais clientes. Vieram também muitos jornalistas, americanos e estrangeiros, o que constituiu boa publicidade.
Quanto ao ataque ao Afeganistão, Yousef diz apenas que já não há lá nada para destruir. "Ainda por cima os russos deixaram mais de 40 milhões de bombas enterradas....os afegãos que lá restam não precisam de bombas mas de comida", diz. Se houver guerra no terreno, Youssef tem a certeza que será uma dura prova para os afegãos, mas também para os soldados americanos, que não conhecem as montanhas.
"Deviam encontrar o Bin Laden, mas não sacrificar mais o povo". Um povo já tão sacrificado pelo regime Talibã. "Espero que o próximo governo seja bom para o Afeganistão porque então será também bom para o resto do mundo", diz o afegão que gosta de parábolas. "Deus fez os dedos da mão todos diferentes, mas cada um por si, de pouco serve", concluí este muçulmano que reza cinco vezes por dia.

 
 

O museu de Beate Huhse:                             
o erotismo e a história

Umbigo, nº 2, Setembro 2002

Clara Games

 

Ao longo da sua vida, a mulher que é responsável pela sexual Aufklerung na Alemanha e por tornar o didatismo sexual numa cash cow, foi juntando objectos relacionados com sexo e representações eróticas de várias culturas e tempos.
Claro que a grande projecção económica do seu grupo de empresas ajudou à formação de tão vasta colecção. Mas apesar de tudo, são raros os gerentes de companhias que vendem produtos sexuais com a sensibilidade e o back-ground para criar um museu como este.

 

 

Durante a sua sua própria vida, Beate Huhse mostrou a sua profunda compreensão do assunto. "Sempre experimentei todos os meus produtos", disse ela numa entrevista, quando já tinha a idade das nossas avós.
Recentemente, ainda fazia ski aquático com um namorado 30 anos mais novo, preto retinto e apetecível só de se ver nas fotos que constam na secção biográfica do museu.
A colecção não está toda em exibição ao mesmo tempo e existem exposições temporárias no museu. Há algumas semanas, quando o UMBIGO passou por Berlim, estava em exibição arte japonesa do século XVIII e XIX. Para além dos pénis de metal ou bambú (com um furo no prepúcio para fazer circular água quente, para maior satisfação da gueisha), chamaram-nos a atenção as faixas de mais de três metros retratando farsas da vida erótica dos nipónicos da altura. Numa destas comic strips com três séculos, vários homens sofrendo de óbvio priapismo tentam, desesperadamente, manter erecto o entumescimento com a ajuda de cordas e paus. Outra destas obras bem dispostas, em que uma orgia acaba em grande confusão, mostra que humor não faltava aos samurais.
O Museu cobre toda uma panóplia de temas eróticos, desde os inocentes selos com a imagem de Marylin Monroe emitidos em Cabo Verde, até ao sado-masoquismo disposto na figura de manequins de chicote e bota, com algum mau gosto mas com a convicção de que os limites do prazer e da dor, na sua relação íntima, variam de pessoa para pessoa e de cultura para cultura.
"Os escravos amarrados com cordas transportam o trono das suas dominadoras; e por baixo mostram a força e a selvejaria do seu fervor", é uma citação de Freud que consta do programa, a propósito da ligação entre cultura, história e erotismo.
A animalidade, o vampirismo, o sexo com animais, aquilo que nos aproxima deles, o que sempre nos atrai e afasta ao mesmo tempo, são temas também presentes nas obras do Museu.
O erotismo como crítica social e política encontra-se também em muitas das representações. O clero é ridicularizado através das suas fantasias pedófilas, a força política e militar de napoleão é transmitida através das proezas sexual dos seus soldados, o proletariado russo acusado de confundir a libertação sexual comlúxuria. Ilustrações de livros de histórias das mil e uma noites ou sucedâneos e da conhecido folhetim de Fanny Hill, constam também da colecção, muitas de autores anónimos algumas de famososartistas.
É certo que muitas peças necessitariam de mais informação ou de melhor enquadramento - a sua disposição em termos museológicos modernos nem sempre é a melhor - mas o espólio é considerável e admirável.

Grande parte do museu está organizado em termos etnográficos: há muito material de outras culturas (por exemplo, os falos gigantes dos deuses africanos ou asiáticos) que custa sempre menos a engolir que o ocidental... é que quando a imagem nos retrata, no passado e na paixão, o rubor sobe-nos às faces. Quando estamos perante os prazeres escondidos dos nossos antepassados mais directos não dispomos da etiqueta "antropológico" para distanciar o sentimento...

No Museu Erótico percebemos também que as representações de hoje são menos fortes que as de outrora. A veemência das imagens que lutavam contra a moral - ou pura e simplesmente se divertiam à sua custa - não tem igual na imagética dos dias de hoje. A banalização do sexo audiovisual torna algumas dos artefactos do museu de Beate Uhse chocantes e requintados. Requintadamente chocantes... um característica raramente encontrada hoje no material erótico disponível em sexshops, livrarias ou na internet. Os próprios videos vendidos pela companhia multi-milionária da falecida Beate não suplantam a criatividade erótica dos deliciosos objectos e imagens produzidos pelos nossos antepassados. Afinal os nossos avós talvez se divertissem-se mais do que nós...

 

 

BIO:

Beate Huhse: do esclarecimento sexual à porno net

Beate Uhse-Rotermund foi a primeira a pôr a uma companhia de venda de produtos relacionados como sexo na bolsa, em 1998, e a fazer muito dinheiro. Foi sempre uma aventureira, no ar, pilotando os aviões da Luftwaffe, nos negócios, no sexo.

Esta senhora alemã, falecida aos 81 anos em 2001, conseguiu aliar o prazer à sua gerência perfeita. Uma grande compreensão das falhas dos outros e da sociedade em geral e de como geri-las, ajudou-a. Foi o que aconteceu quando o seu emprego como transportadora de carga por avião acabou com a derrota dos boches.
Havia carências de muitos bens na sociedade alemã. E Beate tratou de ir de porta em porta vender o que lhes faltava. E quando tentava vender sabão ou aspiradores, deu-se conta de que o que mais lhe pediam era anticoncepcionais. E conselhos...
Dai surgiram, os panfletos didácticos vendidos por correio, mais tarde os livros, um catálogo trimestral, os vibradores a lingerie e a internet até ser a primeira das companhias europeias de sexo a ser altamente quotada no mercado. Em Maio deste ano o grupo Huhse valia 222,8 milhões de Euros, mais 36 por cento do que um ano antes.
Beate, entretanto foi, alegadamente, experimentando todos os seus produtos, da inocente cuequinha, ao dildo mais feroz, enquanto, já para lá dos 70, voava o seu Cessna, fazia mergulho nos trópicos onde se divertia com um negro musculoso e passava a companhia aos herdeiros, sem lhes dar demasiado controle até à sua morte, engelhada, gozada e gozona.
O poder que uma pequena mulher de 80 anos tem, pode ser incomensurável. O de Beate e o das nossas avós, de que geralmente não conhecemos a história toda...

 
 

Amazons from outerspace:          
o sexo na ficção científica

Umbigo, nº 4, Setembro 2002

Clara Games


Amazonas que escravizam homens para procriação, ninfas azuis que se saciam num multi-pénis gigante, cibersexo com estrelas pop virtuais, relações com androídese clones, homosexualidade entre subhumanos e robots, troca de corpos, incesto e sadismo. Encontramos de tudo um pouco na ficção cientifica que nos excita os sentidos enquanto ensaia o futuro da nossa sexualidade.

A relação entre sexo e ficção cientifica (FC) é intima e profunda.
Quando mais não seja porque muitos dos seus mais ilustres autores se dedicaram, na maioria sob pseudónimo, à escrita pornográfica tout court ou misturada com robots homosexuais, clones transsexuais, marcianos ou computadores tarados.
É verdade que no final do século XIX e princípios do século passado, o sexo era omitido e as mulheres não iam a outros planetas, nem sequer como objecto sexual. A mulher era o ser angélico e maternal que ficava à espera que o herói regressasse das suas aventuras. É o que acontece com Verne, H.J. Wells ou no Mundo Perdido de Connan Doyle. Não admira que nas adaptações destas obras ao cinema e à televisão se tivessem que introduzir personagens femininos... Até mesmo em Metropolis (1926), a obra prima de Fritz Lang, a heroína é o cúmulo da paciência e da abnegação e de outras pretensas qualidades femininas. Felizmente para os nossos sentidos, o vilão substitui a dita menina por um escultural robot fêmea que se aproxima mais de uma diabólica meretriz.
O papel da mulher na ficção cientifica acompanhará os tempos e só nos anos 70 ela vai ter direito a protagonismo, como veremos mais tarde.
Contudo, se nos primórdios o sexo e o erotismo eram inexistentes na ficção cientifica, por meados do século XX, as coisas mudam.
O fenómeno OVNI dos anos 50 deu visibilidade às histórias de FC, enquanto a libertação sexual dos anos 60 permitia que a ficção erótica ganhasse projecção em publicações como a Playboy, a Penthouse e afins. A ligação de ambos os géneros "menores" ou malditos efectuava-se, com as revistas pornográficas a publicarem contos de ficção cientifica e esta a levar ainda mais longe as recém adquiridas liberdades sexuais.
Se é verdade que a pulp fiction apenas usava os monstros do espaço para agarrar as meninas semi-despidas da capa, a partir de certa altura, a fusão dos géneros instala-se na páginas interiores dos livros sérios.

As curvas de Barbarella

E, para começar a citar, temos as incontornáveis curvas de Barbarella, a primeira heroina da FC, que, para além de fazer sexo com anjos e monstros galácticos, sempre com muito humor, ainda consegue dizer, numa de peace and love, que o mundo não se muda com violência. Mulher independente e senhora do seu destino a personagem de banda desenhada (BD) criada por Jean-Claude Forest para a revista francesa V Magazine em 1962 é o expoente do erotismo na banda desenhada de ficção ou não fosse criada à imagem do sex symbol da época: Brigitte Bardot. Anos mais tarde Roger Vadim pôs a sua esposa, outro ídolo popular, a protagonizar a versão cinematográfica de Barbarella que, infelizmente, não chega aos calcanhares das histórias da boneca loura de linhas psicadélicas. Não que Jane Fonda seja de culpar, Vadim é que não percebeu o potencial de FC que ali residia e fez um filme já ultrapassado para a época, um produto kitsh do género Planeta Proibido (por sinal um clássico da série B com Walter Pidgeon, que não deixa de ter os seus momentos naíve-ó-eróticos).

Pornografia e feminismo

Se os anos 60 foram um período de experimentação na ficção cientifica, foram também uma era de revolução de costumes que incluiu a pílula, a queima de soutiens por feministas, nudez no teatro, o orgasmo como tema de publicações sérias, a libertação gay e o sexo em grupo. A pornografia floresceu e as fronteiras entre géneros diluíram-se. Os consagrados Philip José Farmer e Marion Zimmer Bradley foram pioneiros nas questões da sexualidade. Ela, mais conhecida pela obra As Brumas de Avalon, escreveu sob vários pseudónimos três romances soft core com títulos tão sugestivos como I Am A Lesbian, Knives of Desire e No Adam or Eve. Ele, preferiu o hard core em Blown, The Image of the Beast (S&M), Love Song (incesto) ou A Feast Unknown.
Por essa altura o papel da mulher na sociedade estava em mudança e, mais um vez, a ficção cientifica estava na vanguarda, não só retratando a realidade, como mostrando até onde ela poderia ir. Em 1975 Joanna Russ escreveu uma das primeiras obras da FC feminista, The Female Man, em que quatro mulheres de dimensões alternativas se encontram: uma vive no presente, outra numa dimensão em que a mulher é ainda mais vítima das convenções e do machismo, uma terceira vive num futuro sem guerra ou fome em que todos os machos morreram há séculos e, por fim, uma última vem de um futuro alternativo onde homens e mulheres vivem em campos militares separados e mata machos por desporto. O livro tem cenas de sexo que foram controversas à altura, como uma em que uma das personagens acaricia uma adolescente ou outra em que a mulher do futuro faz sexo com o seu escravo-homem.
Também Ursula K. Le Guin trabalhou temas ligados à libertação sexual da mulher como por exemplo na utopia Os Despojados (1974) em que contrapõe o relacionamento social e sexual de dois mundos, um anarquista e o outro capitalista.

Eros na BD de ficção

Voltando à BD que deixamos para trás com o maior expoente da FC erótica, Barbarella: é preciso não esquecer os heróis americanos dos anos 50 e 60 com que ela partilhava a mesma fisicalidade, como Flash Gordon ou Batman. Só que, se nos americanos o erotismo das formas era óbvio é também certo que ele se ficava por aí - nem a hipocrisia americana permitiria outra coisa. Quanto à BD de ficção francesa existem excelentes exemplos de uma relação mais ou menos directa com o erotismo, como O Vagabundo dos Limbos em que o viajante do espaço Axle Munshine procura a mulher ideal, que afinal está "contida" no palhacinho asexuado que o acompanha fiel mas criticamente. Também Jodorowsky na longa série de O Incal introduz cenas do mais clássico sexo alienígena - sempre com muito humor. É igualmente inegável a relação de Enki Bilal com o erotismo (como esquecer a sua mulher "azul"). E claro, há o óbvio Manara, mais ligado à Fantasia que à FC. E, por fim, a manga japonesa, o eco de uma sexualidade muito oriental, onde as meninas da BD pornográfica comum despem a farda colegial e vestem fatos de astronauta, enquanto de masturbam à frente de seres com o erotismo de um ursinho de peluche...

Várias categorias para muitos autores.

As relações sexuais na FC podem dividir-se em vários tipos: as relações inter-raciais ou seja entre humanos e humanoides ou outras espécies; as relações de humanos com robots, andróides (o filme Blade Runner, de Stanley Kubrick) ou clones e, porque não numa categoria à parte, o cybersex, sexo virtual através da internet ou com seres humanos com substituições ou acrescentos biomecânicos ou biodigitais. É aqui que pertencem as cenas de sexo da trilogia Neuromancer/Count Zero/Mona Lisa Overdrive do autor cyberpunk William Gibson. No seu Idoru um cantor pop decide casar-se com uma actriz japonesa.... virtual.
Há ainda as relações, de que já demos vários exemplos, entre humanos colocados num contexto de repressão política e social (1984 de George Orwell) ou ligadas a novos modelos de relacionamento sexual (poligamia, poliandria, casamentos de grupo) em utopias ou distropias de mundos alternativos.
Já referimos alguns dos a mais proeminentes autores da FC mas é preciso não esquecer outros, não menos importantes, que trabalham o erotismo. Por exemplo, Brian Aldiss em The Hand-Rear Boy trata de onanismo. J. G. Ballard em Crash (adaptado para o cinema por David Cronenberg) trata da forma como os media, neste caso as notícias de acidentes, levam à criação de fetishismos tecno-eróticos. O mais antigo Robert A. Heinlein cria um personagem bisexual que pratica sexo comunal no seu Um Estranho Numa Terra Estranha. A sobrepopulação da Terra é um dos temas de The World Inside de Robert Silverberg, fazendo com que, devido à falta de privacidade, seja perverso não dormir com uma pessoa diferente todas as noites. O mesmo autor aborda o sexo entre robots e humanos em Tower of Glass. Em Involution Ocean, de Bruce Sterling, um homem ama uma alien mas o sexo causar-lhe-ia dor e mesmo a morte. E até o bem disposto Terry Pratchet, mais dedicado à Fantasia, leva a sério as relações entre humanos e extraterrestres em Thoughtworld.

Colectâneas dedicadas ao tema

Em "O Sexo na Moderna Ficção Cientifica", uma interessante antologia da FC francesa publicada em Portugal nos anos 70 (Edições Afrodite), Pierre Christin (mais conhecido como autor da BD Valérien, Agent Spacio-Temporel) cria um mundo em que um editor de um jornal visual recebe imagens antigas que provam que o antepassado de um dos senhores da galáxia não conquistara um planeta pelo amor e miscigenação, como ficara na história, mas sim pela violação dos seus habitantes: mulheres azuis e gentis. Estas reproduziam-se através de um multi-falo pacifico que os homens deceparam numa fúria sexual e sanguinária, antes de violarem as mulheres. Uma alegoria à colonização na Terra...
Em A Vana, de Alain Dorémieux, criaturas fêmeas humanóides - mas não inteligentes - que se reproduzem por partenogenese, são trazidas para a Terra e utilizadas como bichos de estimação para o sexo com homens interditos de se casarem até aos 30 anos. Um deles apaixona-se pelo animalzinho, é votado ao ostracismo e acaba por se deixar morrer com um vírus de que a Vana era portadora. O amor é uma coisa linda, mesmo que o seu objecto sejam bichinhos de outros planetas....
A colectânea inclui contos de outros excelentes autores de FC: Jean-Pierre Andrevon (os extraterrestres, disfarçados, vivem na Terra e evitam que a gente dê cabo disto tudo); Nathalie Henneberg; Michel Jeury (num futuro negro um professor de história é chamado telepaticamente por uma amante para acabar sadicamente assassinado por um gang enquanto penetra o cadáver da mulher que o chamara) e Bernard Mathon (um homem abandona a amante que, humilhada, vai descendo as escadas do prédio atrás dele: enquanto ele vai perdendo o orgulho, ela vai-se investindo de poder até ele morrer - um assassinato planeado pelas mulheres que controlam o mundo).
Numa outra colectânea dos anos 70, Eros in Orbit (editada por Joseph Elder para a Simon&Schuster, 1973) Silverberg ensaia um futuro em que cada um dos elementos de casamentos em grupo, a norma, pode sentir o que os outros sentem quando fazem sexo, graças a um implante cerebral. Claro que um engraçadinho resolve que quer ser monógamo e estraga tudo. Clone Sister, de Pamela Sargeant e Flowering Narcisus de Thomas M. Scortia prevêem um futuro em que a clonagem humana será proibida pela lei e por um público horrorizado - como veio a acontecer. No conto de Scortia o único sobrevivente na Terra tem sexo com uma mulher que os androídes que agora mandam no mundo lhe criaram. Machista e chauvinista, acaba por se aperceber de que não só a fêmea é um clone de si próprio, como ele é um clone do original que não sobreviveu.
Enfim, o sexo e o erotismo no futuro ou em dimensões alternativas continuarão a ser uma incógnita sempre maravilhosamente explorada pela literatura de ficção cientifica.

 
 

Pé de lótus: a histórica perversão

Umbigo, nº 3, Dezembro 2002

Clara Games

 

O enfaixe dos pés das mulheres, na China, foi das práticas relacionadas com o erotismo mais difundidas e mais perversas de sempre: ao longo de mil anos, mais de um bilião de meninas passou pelo horror de ter os dedos dos pés partidos e estes ligados firmemente pelas suas próprias mães e avós, num ritual de dor cuja finalidade era a construção do objecto máximo do desejo masculino, permitindo assim a segurança material e a ascensão social à mulher.

Mas atenção: para percebermos o pé de lótus (ou de cabra, como é chamado em Macau), é preciso tentarmos abstermo-nos de qualquer etnocentrismo, julgamento moral ou cultural. É fácil condenar os costumes de outros povos e tempos quando não nos vemos ao espelho - não voltou o salto alto de biqueira fina à ordem do dia?
A origem do costume tem sem dúvida um fundo estético: qualquer das principais lendas utilizadas para justificar o seu nascimento - incerto na história - são narrativas ligadas à cosmética e à atracção sexual.
A mais popular conta que os pés de lótus ou lótus dourados, derivam o seu nome do facto de, por volta de 920 DC, o imperador Li Yu da dinastia Tang do Sul ter ordenado à sua concubina preferida, Yao Niang, que dançava graciosamente, que o fizesse com os pés ligados, para que o seus passos fossem ainda mais sensuais. Outra teoria diz que essa concubina, ao dançar numa plataforma de lírios (daí, também, a expressão "pé de lírio"), com os pés enfaixados, agradou tanto à corte, que a moda se espalhou. Outra lenda mais difusa diz que foram as dançarinas da corte que popularizaram a prática. Por fim, uma outra, associa a criação desta prática à solidariedade das damas para com uma imperatriz que tinha um pé boto.
As lendas que relacionam o costume com as bailarinas não devem passar disso mesmo: se mal conseguiam andar seria difícil que as mulheres com os pés ligados conseguissem dançar... No entanto o que é certo é que a prática surgiu entre a elite chinesa cerca do séc. 1000 DC e se foi difundindo pelo escala social abaixo.

Fortalecer a vagina

Se é certo que dançar , no sentido corrente do termo, seria quase uma impossibilidade para as portadoras do pé de cabra, é também certo que o seus passinhos pululantes que embalavam as ancas como 'um salgueiro ao vento', na tentativa de se equilibrarem nos cotos, provocavam uma excitação intensa nos seus contemporâneos masculinos. É que, para além do efeito estético, acreditava-se que a vagina era fortalecida por aquele andar saltitante e se tornava mais estreita e capaz de agarrar a "seta de jade" do marido. Segundo algumas descrições, fazer amor com uma mulher de pés atados era como desflorar uma virgem eternamente.
Um diplomata chinês, citado por Howard S. Levy em "Chinese Footbiding" em "The History of a Curious Erotic Costume" (NY W Rawls. 1966. p.144), acreditava que o enfaixe dos pés provocava o desenvolvimento das "dobras da vagina" e que aqueles que experimentassem esse efeito pessoalmente sentiriam uma exaltação sobrenatural. Na opinião deste diplomata, o sistema de ligar os pés não era, portanto, opressivo.
Nisso acreditavam os chineses em geral, que garantiam que também era bom para a mulher: nos pés mais pequenos os nervos estavam mais concentrados por isso esta era uma zona erógena por excelência para a amante...

Que número calça ela?

Quando um casamento estava em negociação os pais do noivo não perguntavam à casamenteira se a menina era bela, mas sim de que tamanho eram os seus pés. A beleza da face era dada pelo céu, mas um pé mal ligado era sinónimo de preguiça. Assim, um sapatinho bordado era enviado ao prospectivo noivo juntamente com a uma declaração das riquezas do pai da noiva. O sapato permitia não só verificar a destreza manual da menina como ver quão pequeno era o seu pé e, portanto, qual a sua capacidade de aguentar a dor, qualidade importante numa boa parideira. As que tinham o tão cobiçado "lírio dourado de três polegadas" eram raras e casavam com homens das classes superiores. O pé de lótus estava, pois, associado a um estatuto superior, não só social mas sexual, acarretando conotações tanto de modéstia como de lascívia. Era o fetiche que conduzia a uma melhor relação sexual e portanto à harmonia do casamento.
O pé era não só centro da vida sexual do casal, mas o símbolo por excelência da cultura de bordel. As prostitutas expunham os pés, sem as ligaduras, num quatro privado, onde os clientes os contemplavam, acariciavam, cheiravam e lambiam, mergulhando-os mesmo na chávena de chá ou comendo amêndoas incrustadas nas suas dobras....Dito isto, é preciso não nos esquecermos que a carne dos dedos apodrecidos e dobrados sobre si próprios deitava um cheiro muito peculiar, um dos efeitos da prática que descrevemos em pormenor ao lado.
A parte mais excitante era a fresta que se formava entre o calcanhar e a parte de baixo do pé. Esta era por vezes tratada como uma segunda vagina pelos amantes. Alguns homens, sobretudo actores e prostitutos, também ligavam os pés.
Ao longo de mil anos a poesia e a música exaltaram a sensualidade do pé de lótus, tal como o fizeram as gravuras eróticas. Os "amantes do lótus" descrevem em pormenores várias formas possíveis dos pés e as práticas eróticas em que podiam ser empregues.
Os próprios sapatinhos bordados se tornaram objectos fetiche: eram o que escondia o objecto do desejo e que permitia, por exemplo ao noivo, fantasiar sobre os dotes da sua futura mulher. E o que está escondido, por descobrir, tem muito peso na imaginação humana...

O domínio do homem sobre a mulher

Apesar do lado estético e erótico associado ao pé de lótus é preciso não nos esquecermos que se tratava de uma prática ligada à castidade: uma mulher de pés atados dificilmente fugiria e com muito mais dificuldade trairia o seu marido ou senhor. Depois dos pés ligados as meninas chegavam a passar dois anos quase sem andar - apesar de as mães as açoitarem para o fazerem, de modo a desenvolver as tão cobiçadas dobras. Algumas, das classes superiores, tinham direito a uma criada apenas para as carregar. O objectivo último do pé de cabra era manter a virgindade/castidade da mulher e assegurar que apenas o seu dono usufruía do prazer proporcionado por tal órgão. O costume iniciado na corte espalhou-se por toda a China e por todas as classes sociais - apenas se salvavam as raparigas cujo destino era trabalharem no campo - uma impossibilidade, de pé atado. O pé de cabra é também exclusivo dos Han, a maior etnia da China - os Hakka, os Mongois ou os Tibetanos nunca aderiram ao costume. Durante a dinastia Qing, de origem Manchú, a nobreza tentou abolir o costume, e em 1645 o imperador decretou a sua proibição. No entanto o seu sucessor desistiu do assunto, visto tratar-se de um costume demasiado instalado na maioria Han.
A prática foi finalmente proibida a partir da revolução de Sun Iat Sen, que instalou a república, em 1911, mas continuou a ser exercida durante a maioria do século XX. Se bem que hoje a maioria das mulheres com pé de cabra são idosas, há quem afirme que, em certas províncias e aldeias remotas há ainda quem pratique este costume.
Em 1985, em Xangai, formou-se a primeira sociedade anti-pé de lótus: os membros comprometiam-se a não ligar os pés das filhas e a não permitir que os seus filhos casassem com mulheres com pé de lótus, para além de casavam a progenitura entre si. A influência dos missionários católicos e o contacto com outras culturas, permitiu que os Chineses das classes superiores começassem a perceber o costume como cruel e como um obstáculo à educação das mulheres.
Durante o período revolucionário dos anos 20, muitas mulheres, depois da primeira tortura da ligação dos pés em crianças, passaram por uma outra, tão ou mais dolorosa: o costume que encarnavam foi considerado uma representação da divisão de classes e foram obrigadas a tirar as faixas, obrigando o pé deformado a voltar a uma impossível forma natural. As consequências do pé enfaixado provocam ainda hoje alguns dos maiores problemas de saúde nas idosas, como osteóporose, problemas de coluna e na bacia, bem como dificuldade em agacharem-se (na China, as retretes são no chão).

Um processo doloroso

As meninas eram atadas em tenra idade, entre os três e os oito anos, para que os ossos fossem ainda macios. A maneira de o fazer e a forma que era dada ao pé dependiam da província e do costume. As receitas para amaciar a pele antes do enfaixe variavam também, sendo usadas amêndoas, raízes e ervas, mas também sangue quente de animais: galinhas ou cordeiros, eram mortos na altura e os pés da menina mergulhados nas entranhas do animal. Deixando o dedo grande, os outros quatro dedos eram dobrados para baixo e, portanto, partidos e a ligadura de três metros era posta de forma a forçar a base do pé para trás, aumentando o arco do pé. As faixas eram cozidas com linha e mudadas todas as semanas, diminuindo-se periodicamente o tamanho do sapatinho, que também servia de forma. As meninas eram obrigadas a andar para que o "casco" se formasse. Mesmo assim a má circulação, a podridão e a gangrena implicavam a perda de parte da carne dos dedos e mesmo da vida de algumas crianças, cerca de dez por cento, segundo algumas estimativas. Algumas meninas gatinhavam durante anos, até que, na adolescência, acabado o crescimento do corpo, as dores abrandassem.

Sedução e morte

Sobre esta prática escreveu um autor ocidental, anónimo:
«Á superfície brilha com um belo bordado e irresistível charme, mas por baixo só há deformidade e mau cheiro. Faz uma mulher parecer celestial e de boa linhagem; quando nus parecem um par de cascos. Adornados com sapatos parecem invocam arte e magia; por baixo das ligaduras, porém está o vestígio da violência. Por fora, um pé ligado é erecto e pontiagudo como um pénis; por dentro tem dobras e curvas, como uma vagina. Um par de pés ligados é sagrado e sujo, um tabu e um objecto de desejo. O enfaixe dos pés contamina e purifica, amaldiçoa e cura, mascara e mostra, seduz e mata.»

 
 

Robert Mapplethorpe
Entre a Pornografia e a Arte

Por Clara Games

As suas fotografias podem já não nos chocar da mesma forma que o faziam nos anos 80, mas continua a ser um marco na história da arte. Até Robert Mapplethorpe, nenhum outro artista havia transformado a questão do conteúdo sexual explícito no centro do seu projecto artístico.
A obra de Robert Mapplethorpe não poderia ter surgido senão nos anos da libertação sexual de que faz eco. Opondo-se ao seu trabalho os críticos opunham-se também às mudanças de mentalidade que tornavam essa arte possível. Foi no quadro dessa luta de mentalidades que o artista se tornou conhecido, sobretudo após o cancelamento da exposição The Perfect Moment, na Galeria Corcoran, em Washington, Junho de 1989. Um facto que levou à discussão sobre o financiamento público (através do National Endowment for the Arts) para subsidiar aquilo que, no Congresso e nos média, muitos definiam como pornografia. Se bem que tenha acabado por ser o centro de uma importante questão política, Mapplethorpe não tinha intenções a esse nível. Definia-se sobretudo como um esteta cujo conteúdo preferido era de cariz sexual.
Tendo em conta a escolha do objecto, era inevitável que muitas das suas fotografias fossem politicamente interventivas. Os retratos dos anos 70 da comunidade gay sadomasoquista sensibilizavam para as questões homossexuais, chocando, insultando e provocando moral e esteticamente, de forma a alterar a consciência do público. As suas fotos tornaram-se actos políticos ou, como define Arthur C. Danto, «a forma artística de uma reclamação moral» em nome de determinadas práticas sexuais inaceitáveis para a maioria das pessoas (Playing with the Edge, 1996). O retrato de Bryan Ridley e Lyle Heeter (1979) na sua sala de classe média, envergando roupas S&M, o escravo sentado numa cadeira e o dominador de pé, ao seu lado, segurando a trela, mostra-os dignos e inspiradores para quem, como Mapplethorpe gostava de levar o prazer mais longe, até ao limiar do perigo.
«As pessoas ficam bloqueadas sobre o que o prazer é. Pode ser extremamente sensual, por exemplo, mijar na boca de alguém. Pode ser incrivelmente sensual receber o mijo. É sobre atingir um certo lugar mental que é muito sofisticado (...) Acho que ninguém percebe a sexualidade. É sobre o quê? É sobre o desconhecido e é por isso que é tão excitante», declarou o artista à revista Splash em 1988. O que nos leva ao tríptico Jim and Tom, Sausalito (1977) em que o primeiro urina na boca do segundo, outro bom exemplo de uma obra no limiar, e que por isso não pode deixar de ser política. Trata-se, também, da obra que mais difícil é não considerarmos pornográfica. Os peritos que foram chamados a defini-la no julgamento de Cincinnati, que teve lugar depois do cancelamento da referida exposição, classificaram-na apenas como «três estudos figurativos», numa óbvia negação do seu conteúdo. É certo que este trabalho é uma bela composição formal - inspirada na infância católica do autor, com a luz a vir de cima como numa igreja, e o número típico dos quadros religiosos, três – mas  é impossível abstermo-nos do seu conteúdo. E é essa formalização de um objecto que poderia ser encontrada em qualquer revista pornográfica que define a obra de Mapplethorpe. Não que o seu trabalho tenha um «valor social redentor», fórmula muito usada para diferenciar a arte da pornografia. «Pode ser pornografia e mesmo assim ter esse valor social redentor. Pode ser ambas, e é esse o meu objectivo – ter todos os elementos da pornografia e, contudo, ter uma estrutura de luz que a faz ir para além disso», disse o artista à Splash. Ou seja, a obra de arte pode transcender-se, como o artista também gostava de dizer, e não deve ser meramente reduzida ao seu conteúdo.
Era essa transcendência que Mapplethorpe procurava já no início da sua carreira, quando fazia colagens usando recortes de revistas porno que depois cobria parcialmente, imitando os plásticos que cobrem esse tipo de publicação. Recordava a excitação que essas imagens lhe provocavam em miúdo e desejava que fosse possível produzir arte que causasse o mesmo tipo de sentimento, ou seja, «smut that is also art», como ele próprio definiu. A sua ambição era criar imagens pornográficas pelos critérios das sensações que provocavam mas que, na realidade, fossem arte pelos critérios estéticos. E tornou-se, numa expressão de Danto, «um pornógrafo com altos objectivos artísticos».
Das poucas fotos de crianças que tirou, há uma incluída na malfadada exposição, Rosie (1976), que ainda hoje provoca mais celeuma que qualquer outra porque, banalizada a questão gay ou mesmo o S&M, a pedofilia continua na ordem do dia. Uma menina de um ou dois anos, absorta, está sentada num banco e, por baixo da saia, vê-se o seu sexo. Na realidade, podia ser uma imagem tirada de qualquer álbum de família. E também na história da arte encontramos crianças revelando os órgãos genitais, mas parece ter havido um esquecimento disso nos EUA onde, durante a era Reagan, chegou a ser legislada a proibição de retratar infantes nus. Porém, tal como o menino Jesus nu de Bellini (quadro reproduzido, ironicamente, na mesma secção do New York Times que publicava os resultados do tribunal de Cincinnati) a imagem de Rosie transcende-se: é carne mas simultaneamente habita os píncaros da elevação espiritual e estética.
«Estou obcecado com a beleza, quero que tudo seja perfeito», dizia o artista (Collecting Quality- The Print Collector’s Newsletter, 1982). E foi o que fez com o pénis: tornou-o perfeito. Porém “esteticizou” o falo usando apenas os de grandes dimensões, afastando-se do ideal clássico, em que ele é pequeno, sendo o grande ridículo e característico dos sátiros. Há quem possa ver nessa escolha de pénis soberbos um reducionismo semelhante ao dos grandes seios, mas para ele não haveria outra escolha. Danto fala mesmo de um «falocentrismo estético» testemunhado em Man in Polyester Suit (1980) e Mark Strevens (Mr. 10 ½) (1976). Neste último, Stevens, envergando calças de cabedal abertas atrás e à frente, está inclinado sobre um género de altar onde expõe a sua rara joía. Dois triângulos de sombra apontam para o órgão e por trás, a sombra do corpo salienta-o, numa retórica sobre algo raro e impagável. O pénis foi posto num pedestal. Mas o falo resiste ao embelezamento. Tem demasiadas conotações para isso e não perde o seu aspecto ameaçador...
Man in Polyester Suit é uma das suas obras-primas e um dos raros retratos que não tem o nome do modelo, que não queria ser identificado – talvez por não ver o seu órgão com o mesmos olhos do artista. Um homem negro, cortado pelo peito e por cima dos joelhos, expõe um enorme pénis, pendurado na braguilha aberta. O fato é como uma cortina que se afasta para revelar o actor principal. A luz, a composição, as formas, combinam-se para tornar a foto num objecto estético bem sucedido, num objecto transcendente que, contudo, não ultrapassa a sua verdade sexual: o espectador fica suspenso entre beleza e medo, naquele limiar entre a pornografia e a arte. Um limiar que, após a sua morte e nos últimos anos, se tem vindo a deslocar. Mas só quando a moralidade mudar, de modo a que esta foto já não nos surpreenda ou choque, a obra de Mapplethorpe deixará de fazer sentido.

 
 

Pêlo sim pêlo não

por Clara Games

O pêlo, que tanto gostamos de acariciar no bichano lá de casa ou no cachorro do vizinho, não nos provoca a mesma sensação nas pernas da namorada ou nos ombros do charmoso que vemos nu pela primeira vez. Os pêlos do corpo humano – ou, mais frequentemente, a ausência deles – estão ligados ao erotismo em quase todas as culturas contemporâneas ou antigas.

Cortar pêlos, arrancá-los, electrocutá-los ou oxigená-los são acções de cosmética nem sempre sensuais e muitas vezes dolorosas, a que nos sujeitamos de lágrima ao canto do olho e sorriso na boca, antevendo o resultado final: uma pele macia e lisa, pronta a ser acariciada por dedos entendidos.
Enquanto na antiguidade a lâmina ou a cera de abelha resolviam este problema cabeludo, hoje há uma infinidade de métodos para nos auxiliar a traçar a geografia do pêlo. Ou seja, para que a distribuição seja adequada: nenhum nos ombros, muitos na testa, triangulares no púbis, ondulados no escalpe e por aí fora, consoante a moda e o gosto pessoal. No entanto, este último pouco tem a dizer no que toca ao pêlo que é pêlo, ao genuíno, àquele que nasce do pescoço para baixo; aí a regra é de três simples: nenhum é ideal, alguns é aceitável, muitos representam um bilhete – só de ida – para o Jardim Zoológico.
Todavia, nem sempre assim foi. Na cultura ocidental recente, o pêlo não era tido nem achado até ao princípio do século XX. E embora nos anos 20 e 30, em Portugal, as mulheres ainda atraíssem os pretendentes mostrando um pedaço de perna pilosa, desde 1915 que as americanas condenam tal prática. Ou seja, senhoras, quando estiverem a cerrar os dentes na marquesa devido àquele “pintelho” que não despega, ou quando estiverem a espremer o quisto sebáceo provocado por um recalcitrante folículo, urrem de raiva contra o capitalismo, o marketing e os americanos! Tudo começou com a capa da Harper’s Bazaar de Maio do referido ano, em que uma modelo com um vestido de alças mostrava, pela primeira vez, os ombros e as axilas depiladas. Um executivo da Wilkinson Sword Company, que fazia lâminas de barba, aproveitou para lançar uma campanha cuja premissa era: ter pêlos debaixo dos braços é anti-higiénico e não é feminino. E quando as saias subiram, o pêlo, mais uma vez, desceu na consideração da mulher.
A lâmina foi deslizando pelo corpo abaixo e, de 1915 para cá, o pêlo foi perdendo terreno até se tornar num animal (felpudo) em vias de extinção, ou seja até à depilação total. «E viva a alopécia!», gritaremos dentro de alguns anos, contentes por termos uma doença que causa a queda do pêlo. Nem o cabelo se salvará quando o nome da mais recente companhia dermo-estética for «ET»...

A maldição do careca

Mas, para já, o cocuruto ainda se enfeita com fios de queratina (a substância de que é feita o pêlo e o cabelo). Quer dizer, alguns cocurutos, porque os calvos proliferam. E esses são os párias da espécie humana no que toca ao pêlo: nenhum na cabeça e inúmeros nos ombros, costas e partes pudendas – assim dita o excesso de testosterona de que sofrem quase todos os carecas. Pois é, eles seriam aqueles de que elas gostam mais, se não fosse a vingança do pêlo – afinal, como provar que se é bom na cama sem mostrar o corpo? Simples: sexo só de camisa, mas daquelas com punhos e gola, que nada têm a ver com Vénus. Eis a condenação do careca peludo.
Mas porquê este desejo de ter as sobrancelhas finas e as pestanas grossas? Não podia ser ao contrário? Não, porque a ideia é aumentar os olhos, e portanto, ter ar de animal pequeno ou criança a pedir protecção - ou seja de mulher a pedir que a comam. O delinear do sobrolho tem de ser acompanhado da eliminação do bigode porque apesar da libertação sexual, não há homem que aceite uma namorada de “pêlo na venta”. Esta opção de uma mulher cada vez menos hirsuta, remete para uma infantilização desta. Os mamíferos novos têm falta de pêlo mas com a idade adulta este transforma-se num casaco luxuriante. Cortar o pêlo é portanto uma tentativa muito humana de nos distanciarmos da animalidade. Claro que não conseguimos e, portanto, assim tão depilados, apenas nos parecemos com animais jovens que ainda não desenvolveram o seu potencial na totalidade. Imaginem a coisa na perspectiva de um orangotango ou de um leão: parecemos horríveis e destituídas crias de mamífero, boas para proteger ou comer.

Regras e pontos de exclamação

Mas nem todo o pelo é a eliminar. Como já referimos, existe uma geografia muito específica que varia com a moda e a época. A sobrancelha já desapareceu totalmente (as chinesas de certas dinastias rapavam-nas); já foi um traço pintado (como as gueishas e Marlene Dietrich) ou uma fina linha super arqueada nos anos 50. Também já andou perto do natural (mas jamais unidas, nem nos homens!) e actualmente voltou a perder pêlo, mas com regras. Vejamos quais; segundo as esteticistas a sobrancelha divide-se em três pontos: o A – ou a cabeça, o ponto B – ou o coração e o ponto C – a extremidade exterior. O ponto C deve corresponder a um terço da espessura do ponto A e o ponto B deve encontrar-se a dois terços da sobrancelha (partindo do ponto A). Se esta explicação vos faz franzir o sobrolho, então o melhor é deixá-lo ficar como está...
A púbis é o local onde temos direito a mais hirsutos, se descontarmos o crânio. Mas tal como não devemos andar despenteados, também ali a coisa tem praxe. Desde que o biquini apareceu que a linha que tomou o seu nome se tornou um imperativo. Dos anos 70 para cá a área foi diminuindo: nessa altura ainda era um quadrado farfalhudo que depois começou a ser aparado até se tornar num triângulo por baixo da barriga, cada vez a puxar mais para o ponto de exclamação (o ponto final está escondido, claro).
A depilação total nesta zona é actualmente muito apreciada. Um efeito da moda Lolita ou do sucesso da pedofilia? Para os japoneses, os pêlos púbicos representam o cúmulo do erotismo e nas revistas da especialidade as senhoras aparecem sempre com uma bolinha vermelha em cima dos ditos, à semelhança do que os chineses fazem com os mamilos.
Os homens não se escapam: hoje, para além de aparar a barba, é essencial aparar a púbis e mesmo - consoante os gostos ou exigências do(a)s companheiro(a)s sexuais - rapar os testículos (essencial para certas práticas orais). Se os barbeiros não fossem uma espécie em vias de extinção, e tendo em conta a liberalização dos costumes, daqui a alguns anos, um homem ao entrar na barbearia diria barba, bigode e mais qualquer coisa.
É claro que há sempre gente do contra. Daí a criação da cabeleira púbica (em várias cores) que já vimos posta a bom uso em revolucionárias performances de artistas de dança-teatro. Espera-se para breve o lançamento da cabeleira de ombros e do capachinho para o dedo grande do pé.
Enfim, lâminas, ceras e lasers parecem estar para ficar nesta nossa batalha contra o hirsutismo latente. E, pêlo sim pêlo não, o melhor é ir já marcar uma sessão de depilação.

 
 

É para o menino e para a menina!

por Clara Games

Não há menina que o admita, mas muitas já usaram aquele objecto de massagem facial para fins mais lúdicos. Há mesmo aquelas que guardam os seus brinquedos numa gaveta especial - as mais afoitas na mesa de cabeceira, as tímidas no canto, atrás das cuecas de gola alta.
Quando se fala em masturbação, pensa-se mais nos meninos do que nas meninas. Se não, veja-se o imaginário popular (qual é o feminino de bater punhetas?), a banda desenhada, os filmes de Hollywood, as anedotas na Internet  e a quantidade de expressões idiomáticas, sobretudo em inglês - o que leva a crer que se trata de uma prática enraizada na cultura anglosaxónica. No meu entender, essa percepção está errada: na realidade, enquanto está um menino a estrafegar o macaco (choking the monkey) três meninas estão, muito discretamente, entretidas com as suas partes íntimas. O que o prova? Muito simplesmente, o facto de o vibrador ser o rei dos brinquedos sexuais! Claro que muitos meninos também lhe sabem dar uso pessoal, mas a coisa foi inventada a pensar nelas, quer em termos de publicidade, quer em termos de ancestralidade (as gueixas usavam-nos de marfim, com um buraquinho ao meio para despejar água tépida).
Contudo, o brinquedo sexual não é, de forma nenhuma, um mero objecto onanístico. Basta dar uma volta pela Internet para ver que a publicidade é frequentemente dirigida a casais. Ou seja, o vibrador, a ficha de rabo ou o anel de pila são usados para dar prazer ou exibir aos olhos dos amados e amantes. No fundo, todos os meninos sabem que brincar sozinho nunca tem a mesma piada que brincar acompanhado, quer seja aos médicos (veja-se os forceps de mamilo) ou à macaca…
Estes inventivos electrodomésticos dão, na realidade, o seu melhor a dois ou até a mais. Senão, vejamos os comentários de um marido baboso ao coelho saltitão (jack rabbit): «A minha mulher teve três orgasmos sem mãos». Um outro comenta: «A minha esposa não gostava deste tipo de coisas mas, depois de a ter convencido a usar o coelho, tive que a arrancar do tecto». Uma senhora solitária também gaba as virtudes do bicho: «Nunca tinha tido um orgasmo antes. Depois da invenção do coelho saltitão, é estranho como é que ainda há homens por aí». Para aqueles e aquelas que ainda não tiveram o prazer de entrar em contacto com esta oitava maravilha do mundo, o saltitão é um vibrador duplo que estimula a vagina, o clitóris e ainda tem uns berlindes para o ponto G!
Para as meninas que não gostam de ter corpos estranhos a invadi-las (o que não é o mesmo que ter corpos de estranhos a penetrá-las) e para quem só a ideia de um tampão as faz ficar cobertas de alergia, há uma solução: a pulseira-anel vibrador. Isso mesmo: colocamo-lo como qualquer jóia não sexual, só que neste caso os botões do pulso regulam a vibração do anel que pomos no indicador (ou, porque não, no anelar, por cima da aliança relativa ao cônjuge ausente mas sempre no nosso pensamento?).
Para os meninos, a parafernália é quase tão grande como para as meninas, mas os brinquedos nem sempre são tão esteticamente interessantes. Ele há os objectos para aumentar o pénis em forma de capas realistas de borracha (de que elas, mais que eles, desfrutam), as bombas de vácuo (idem) e os anéis de pénis (ibidem). Depois, há as vaginas realistas, algumas copiadas das estrelas porno, e as bocas - com ou sem bigode, para todos os gostos. O meu electrodoméstico preferido é aquele que consiste em dois anéis, um para o pénis e outro para os testículos, completados por um estimulador clitoriano onde está instalado o vibrador. O material é futurístico (chama-se Cyberskin), de boa qualidade - importantíssimo para não se apanhar doenças de pele - e o brinquedo é lindo, sendo ainda, e no verdadeiro sentido do termo, para o menino e para a menina.
A ancestralidade lúdica da humanidade - veja-se as referidas gueixas - precede a invenção da borracha, das pilhas e da parafernália consumista da era capitalista. Se as bolas vaginais são bem antigas, não é menos verdade que os produtos naturais e métodos caseiros também o são. Leonardo Da Vinci, a propósito de naturezas mortas, faz referência a uma senhora que acabou na fogueira pela sua muita afinidade com pepinos… Na realidade, desde a Antiguidade Clássica que, depois dos doze, ninguém nos deixa brincar com outra coisa que não seja um computador ou um telemóvel (daí o toque vibratório...).
Bom, mas se a indústria vai de vento em popa e o brinquedo até já nem leva à fogueira - só ao choque da mãe que foi arrumar as cuecas de gola alta ou do namorado que foi meter o nariz ciumento na gaveta onde não devia - também é verdade que não é preciso dar dezenas de euros pela luva vibratória (com vibração aos cinco dedos), pela Fleshlight, a vagina realista disfarçada de lanterna de bolso ou pelo porta chaves vibratório. Qualquer bola de praia, melão, cobertor ou barra de sabão faz o mesmo efeito. Como - pergunta o curioso público. É fácil: a bola de praia enche-se bem e a menina senta-se em cima dando pulos (se rebentar na hora H tanto melhor); no melão faz-se um buraco à medida do menino (pode-se aquecer no microondas para maior requinte térmico); o cobertor puxa-se com os pés numa extremidade enquanto a outra se roça no clitóris e o sabão é esburacado a berbequim e, claro, molha-se. Quando o buraco estiver demasiado largo pode-se aproveitar para esfregar outras partes do corpo. E há sempre a simples banana, descascada ou com casca consoante o paladar, metida num preservativo… Há mais de onde vieram estes, mas não é muito mais bonito sermos nós a criá-los? É assim um pouco como a boneca de trapos que costurámos aos dez anos versus a Barbie industrial.
De qualquer modo, para os menos criativos ou mais preguiçosos, as opções no mercado são mais que muitas. Porque não enfeitar o clitóris com continhas presas por um gancho? Ou melhor ainda, meter as ditas no ânus?  Para massajar o clitóris existe todo o tipo de insectos: abelhas, borboletas, beija-flores e até - seguramente de inspiração japonesa, que os nipónicos sãos uns grandes brincalhões - ursinhos e gatinhos à moda da Hello Kitty.
Como é que ainda podem andar para aí uns senhores a queixar-se de que as esposas são frígidas? Possível e erradamente oferecem-lhes flores nos anos…

 
 

Destricted – Sem restrições

Por Clara Games

Seria impossível a Umbigo deixar passar em branco o excelente e já incontornável festival Indie Lisboa. Para além de Shortbus, filme sobre o qual já falámos na Umbigo #14 e que estreou há pouco no circuito comercial, uma das obras que quisemos destacar é o projecto Destricted que convidou sete artistas a fazer um comentário sobre a influência da pornografia na cultura mainstream. Os resultados, se bem que díspares, conseguiram irritar a tradicional crítica de cinema que considerou alguns dos trabalhos presunçosos, ou ridículos, e os condenou por quererem fazer o que a pornografia faz - excitar o espectador e levar ao onanismo... Surge também a crítica de que há muito falo e pouca vulva – comentário a desprezar tendo em conta que maioria dos críticos são homens heterosexuais ou heterointelectuais que pouco gostam de ver pilas e se sentem, inclusive, ameaçados com visões priapescas.

Deixando o que já foi dito sobre a obra, passemos à mesma.

Destricted começa com um grande plano de um pénis escuro pertencente a um homem branco – há destes, como sabemos – que por entre detritos se vai entesoando. Há um crescendo musical, tintilante, à medida que a pele se estica. É o início de Hoist de Mathew Barney (sim esse, o marido da Bjork e autor da série Cremaster Umbigo #3). O mesmo homem incorporado num tractor roça o pénis numa broca gigante. O som integra perfeitamente a imagem. Um comentário à relação homem máquina à maneira de Giger? Penso que será antes uma reprodução/critica do sexo maquinal da pornografia. O efeito resulta excitante mas extremamente arty e o filme é, talvez por isso, considerado pretensioso...
Na curta seguinte, House Call, uma menina nórdica de seios opulentos constipa-se enquanto se bronzeia. O médico é chamado e trata-lhe da saúde utilizando um instrumento médico de gargantuesca proporção. Um standard dos anos 70 sobre o qual Richard Prince criou uma banda sonora diferente, repetitiva. Enfim, um repescar da pornografia dos tempos em que as mamas eram naturais e os pelos púbicos excitantes. Os críticos de cinema afirmam que uma má banda sonora não transforma um filme antigo numa obra de arte mas o que é certo é que comparar a estética dos anos 70 com a pornografia de hoje - a maioria das vezes muito clean e fria -  pode ser extremamente interessante de um ponto de vista antropológico.
Uma análise antropológica é o que resulta do trabalho do realizador de culto Larry Clark (Kids) com Impaled, um documentário onde jovens são entrevistados sobre a sua relação com a pornografia, de forma a serem escolhidos para ter sexo com uma actriz porno. Ficamos a perceber a importância que a pornografia tem na vida sexual da geração nascida nos anos 80 e ainda que todos – incluindo um que é virgem – rapam os testículos de acordo com os cânones da imagética do género. Modas... O seleccionado acaba por ter uma série de conversas com cada uma das actrizes sobre o que as levou àquela vida, o que gostam de fazer mais e menos, etc. Uma das artistas foi violada aos 15 e outra começou a fazer sexo aos 12, porque, muito pequena já se masturbava e tinha desejo (surge aqui a escamoteada questão do sexo na infância que é também abordada no filme de Gaspar Noé). O rapaz quer fazer sexo anal - que nunca experimentou - e acaba por escolher a actriz mais velha, um esplendor de quarentona... O acto, com a naturalidade que todos nós conhecemos por experiência própria, terno e com humor, é filmado sem subterfúgios visuais. A crítica - concerteza habituada à pornochachada -  afirma que o que Clark quer é ver as pilas dos rapazes (quando esse momento é tão interessante para se entender a relação que têm com o corpo, por vezes discordante com a fanfarronice da conversa) e que a forma simples – sem luzes, cortes, grandes planos, etc – como filma a cena de sexo é tão desumanizante como a pornografia. Não me parece ser o que ressalta dessa cena que – se não tem glamour tem a ternura da realidade, a beleza do sexo quando é feito por dois adultos que consentem de tal forma que se aproxima quase do amor.
De amor por si próprio se fala em Death Valley. Um homem vagueia no dito vale (uma alusão ao feminino?) até que pára e começa a bater uma punheta, desesperada, mudando de posição, quase se deitando, como se quisesse fertilizar a terra. Um esforço onanístico de que comungamos ao longo dos oito minutos do trabalho de Sam Taylor Wood. Um tratamento interessante sobre um clássico, o orgasmo como morte.
Os críticos de cinema (que não deveriam ir ver estas coisas, não lhes são dirigidas e até lhes fazem mal...) acusam Destricted de abusar do onanismo. Pois se esse é um dos objectivos da pornografia, ajudar-nos no acto solitário, por vezes triste, por vezes alegre mas muito humano de nos masturbarmos, porque não reflectir sobre ele?
A peça da célebre performer Marina Abramovic é a mais plástica e a que melhores críticas recebeu. Apesar do humor – trata-se de um gozo a partir das tradições ligadas à sexualidade nos Balcãs, de onde a autora é originária - é talvez a peça que menos reflecte sobre a pornografia na actualidade. Enfim, evidenciar a importância do sexo e das suas representações na ligação à natureza e na vida de todos os dias contraria a ideia de que sexo e pornografia são coisas anormais e doentias e é isso que Balkan Erotic Epic faz. A imagens de uma série de homens, filmados de cima a “fertilizar” a relva, das mulheres de mamas diversas e contrastantes a invocar a deusa da fertilidade enquanto mexem nas ditas resultam humorísticas mas o efeito geral está longe dos outros seis trabalhos que integram Destricted. O mais que se pode dizer de Epic é que é uma linda fábula.
Sync, de Marco Brambilla junta, durante um solo de bateria de um minuto, imagens das posições cliché da pornografia, a um ritmo acelerado, repetitivo. A pornografia é repetitiva, sim e quem viu um filme viu todos, mas também o sexo é repetitivo e não é por isso que deixamos de fazê-lo. A nível da montagem e sincronização de som Sync é brilhante (e por isso os críticos de cinema gostaram tanto) mas conheço trabalhos semelhantes. A nível do conteúdo é bastante simples...
Um dos filmes mais interessante de Destricted é We fuck Alone – e é também um dos mais castigados pela crítica. No início, um aviso – os epilépticos não devem assistir ao filme por causa dos efeitos Straub - um pouco à maneira das restrições relativas à idade que aparecem no início dos filmes porno.  Gaspar Noé - quase tão brutal como em Irreversible e com o mau feitio que tem na realidade (segundo diz um amigo que o conhece), submete-nos à tortura (e o masoquista em nós, gosta) de ver, em paralelo, uma menina masturbando-se com o seu ursinho de peluche e um adolescente neo nazi com a sua boneca insuflável, enquanto assistem ao mesmo filme pornográfico protagonizado por um casal clássico. Um alegoria para os pais, o filho mais velho e a irmãzinha? Alguém sugeriu que a menina seria o sexo bom e o rapaz o sexo mau, violento (a certa altura ele põe uma pistola na boca da boneca). E é aqui que tenho de dizer que há pessoas que não deviam ir ver estas coisas – vão ao clube de vídeo e aluguem uma cassete da Nicole Smith ou da Jenna Jamesson. Como se houvesse uma fronteira delineada entre o sexo supostamente saudável e o sexo imoral. We Fuck Alone investiga precisamente as fronteiras, sobretudo aquela onde se situa o sexo infantil e uma outra que liga o sexo à violência. O recente escândalo das crianças americanas que deliberadamente se expõem em sites pedófilos através de webcams pode levar a toda uma diferente maneira de pensar o sexo infantil. Ou até mesmo a pedofilia...
Foi interessante e por vezes mesmo excitante (a nível intelectual e não só) ver as sete obras que formam esta primeira colecção – e que não almejam ser um filme no sentido clássico, não se enganem – criada pela marca Destricted ( palavra que quer dizer acabar com as restrições e os limites proporcionando objectividade). Outras se seguirão – é uma ameaça desta plataforma formada em 2004 «para todas as formas de expressão artística não censurada; abraçando e manipulando a expressão do sexo através da arte», como se afirma no site respectivo.
Ficamos ansiosamente à espera...

 

 

João Galante
Mistermiss

Clara Games

Uma pequena conversa com João Galante – performer, coreógrafo, bailarino, actor - sobre dança e nú, a propósito da peça I Love You (coreografada com Ana Borralho, com quem trabalha ultimamente).

Já na performance Mistermissmissmister, os artistas trocavam as identidades sexuais dos performers como fazem em I Love You, mas aqui acrescenta-se uma intensa exploração do corpo em movimentos plásticos abstractos. João Galante e Ana Borralho trabalham actualmente em No Body Never Mind, um work in progress que começou com uma sessão de tatuagem e levou os artistas ao Japão à procura de outras formas de trabalhar e representar o corpo, como o butô.

Umbigo: O que fazes é, afinal, performance ou dança?
João Galante: Vou cada vez mais ao encontro da dança, do movimento – cada vez penso mais em termos de dança. Foi a partir do I Love You que passei a pensar as peças como movimento – antes eram mais teatrais –  o I Love You não tem texto, por exemplo. Admitir que aquilo é performance é admitir que a dança não evoluiu. Além disso, a performance tem estruturas próprias decorrentes das artes plásticas que têm grande relação com o movimento único (como acontece com Mistermissmissmister) – não há ensaio e tem a ver com o que está por trás – é como pensar o corpo para aquele objecto.

Quais são os conteúdos das tuas peças? São abstractos ou mais concretos?
Quando os penso, sinto-os como momentos únicos, separados de tudo o resto. Mas quando vejo as peças, encontro nelas temas abstractos que são doentios. Penso que estou a tentar pôr o dedo na ferida de problemas da nossa sociedade. Mas não sou politicamente activo. Não seria sincero para comigo se fosse.

Mas quais achas que são os temas dominantes dos teus trabalhos?
Nem sempre é preciso propor um tema – quando somos convidados para apresentar um trabalho, por exemplo, não precisamos de expor o tema. Houve uma altura em que resolvi propor personalidades: Freud, Einstein, pessoas que eu não entendia e que passei a compreender melhor. Os temas mudam mas há um aspecto que está quase sempre presente que é o lado do corpo doente. Fui doente de asma, vivia fechado em mim e nas coisas que fazia – desenhava e lia muito. Utilizo o corpo doente como metáfora – o que é um tema recorrente na arte.

Queres dizer que - tirando a recorrência ao corpo doente – geralmente os temas surgem da progressão do próprio trabalho?
Sim. Tirando o filme que fiz com José Nascimento, em que aprendi a trabalhar com guião, com princípio meio e fim, com a lógica narrativa – geralmente o que faço é partir da associação de ideias e palavras. No I Love You, por exemplo, a princípio limitei-me a pedir às pessoas para se despirem, normalmente. Partimos só da nudez em si.

Em muitos trabalhos utilizas o nu. A nudez não se tornou um cliché?
Houve uma altura em que fiquei farto, sim: é uma facilidade como puxar de um cigarro.
Mas ultimamente tenho utilizado novamente o nu – para mostrar o corpo humano como algo muito frágil – retirá-lo das lógicas de comportamento social, retirar as capas, mostrá-lo frágil, com mais crueza. É importante dar a ver o corpo nu ...

Mas vemos corpos nus – Danone e outros – todos os dias...
Vemo-los constantemente mas estereotipados, polidos. Não se vê o corpo nu de forma séria. No I Love You, o público esqueceu-se do sexo a determinada altura –  as pessoas foram perdendo a ideia do sexo e à medida que viam os corpos nus a mexer de determinada maneira, em determinadas posições, sentiram estranheza e viram-nos para além da própria nudez.
 
Há quem ache que actualmente os performers ou a gente da dança-teatro em Portugal anda simplesmente a repetir aquilo que já foi feito nos tempos aúreos da Nova Dança ou mesmo nos anos 70...
A repetição pode ser uma referência, não é necessariamente uma tentativa de dar a coisa como nova. Às vezes há uma soberba de conhecimento por parte de críticos de outras artes... A performance não esteve a dormir e o performer tem que entender a história anterior. Mas não acredito na novidade – acredito na manipulação do que já existe – pode haver uma certa diferença mas mais no entendimento que na forma. Cada vez há mais discurso e menos obra ... tenho pena disso, põe-se de lado uma série de funções que pertenciam à arte e o discurso como obra artística já não surpreende.

Que importância tem para ti o público? É-te indiferente que vão ver as tuas peças, como acontece com alguns artistas?
É muito importante saber que alguém vai ver o que fazemos. Mas é preciso não confundir o desejo de público com comunicação fácil. Não penso que se deva poupar o público – sou apologista das peças difíceis. Não acredito naquele tipo de objectos - artísticos ou não - que só nos querem dar prazer superficial: as pessoas esquecem-se que estas peças mais complicadas dão outro tipo de prazer.

Fazes quase sempre parceria com as tuas namoradas...
Já fiz espectáculos sozinho mas a parceria é boa porque não nos deixa fechar no nosso universo. Tens alguém que te contraria, o que nem sempre é fácil mas é produtivo.

Como vês o panorama actual da dança em Portugal?
Houve um boom com a Nova Dança – tudo começou com a Madalena Vitorino e a geração dela, depois aparecemos nós e agora há uma geração mais nova, que inclui o Tiago Guedes e a Claúdia Dias. Mas a política cultural do governo começou a fazer-se sentir há uns anos de forma violenta: a partir do momento em que o criador tem que produzir, criar e divulgar – ou criamos ou vendemos ou divulgamos. As estruturas que apoiam os artistas não têm capacidade de gerir e cada artista acaba por constituir a sua produtora. Depois há os grandes eventos que não passam de mentiras porque quando deixa de haver injecção de grandes quantias do exterior tudo vem abaixo – promovem  para tirar logo a seguir. Parece que os únicos profissionais da arte acabam por ser os artistas… Mas há uma mudança que vem da vontade que alguns artistas têm de ajudar outros, como acontece com a produtora do Francisco Camacho, por exemplo. Há também uma consciência de que temos que sair e acabamos por ser reconhecidos lá fora. Portanto, se não servimos o mercado nacional é porque não há política cultural, de divulgação. A propósito, formou-se recentemente um grupo de investigação artística na área da dança – mas que integra pessoas de outras áreas. Chama-se GIEPAC (Grupo Informal de Encontro, Pesquisa e Análise Coreográfica) e visa partilhar ideias sobre politicas culturais e processos criativos. Um fim-de-semana por mês juntamo-nos e saímos de Lisboa para reflectir.

 

Radiografia

João Galante nasceu em Luanda em 1968. Fez o curso de comunicação audiovisual da António Arroio e estudou artes plásticas na AR.CO. Estudava luminotecnia no IFICT quando começou a interessar-se pelas aulas dos colegas de teatro e resolveu mudar de curso. Estudou dança no Forum Dança. Fez performance com Alexandre Crespo e João Garcia Miguel no Canibalismo Cósmico. Integrou o grupo Olho como actor e trabalhou como intérprete de dança com Madalena Vitorino, Vera Mantero, Francisco Camacho, Filipa Francisco, Carlota Lagido, Paula Castro, Silvia Real e Rui Nunes. Como coreógrafo, desenvolveu trabalho conjunto com Teresa Prima, Carlota Lagido (ver Umbigo #6) e Ana Borralho. Entre muitos outros trabalhos, coreografou com Jessica Levy e para Madalena Vitorino, encenou uma peça para o Olho e realizou em parceria com José Nascimento o filme T2 – Quarto Andar