Mega processo das seitas:
Dente Partido condenado a 15 anos

Transição de Macau: as questões pendentes

O tio Stanley (perfil do magnata do jogo Stanley Ho)

 

 

Mega processo das seitas:
Dente Partido condenado a 15 anos

Wan Kuok Koi, alegado líder da seita 14 Quilates foi condenado a 15 anos por um colectivo presidido pelo contestado juiz Fernando Estrela, por entre ameaças e choros

Nunca em Macau uma leitura de sentença foi tão concorrida e emotiva. A sala encheu rapidamente e a segurança chegou mesmo a não permitir a entrada na sala a alguns dos jornalistas que se encontravam no edifício do Tribunal para relatar os acontecimentos. A leitura foi rápida e Wan Kuok Koi que entrou na sala a sorrir, saiu gritando injúrias.
O principal arguido neste mega processo foi condenado pelo Tribunal de Instrução Criminal a um cúmulo jurídico de 15 anos, 12 dos quais por pertencer à seita 14 Quilates.
Durante a sentença a assistência, constituída em grande parte por familiares dos dez arguidos, quatros dos quais julgados à revelia, manifestou-se ruidosamente. Quando o presidente do colectivo começou por ler a única absolvição, de Chan Nga Kan, a assistência bateu palmas o que resultou numa ameaça de evacuar a sala por parte de Fernando Estrela.
Dente Partido reagiu violentamente quando a sentença final foi lida, gritando injúrias, algumas em português e o mesmo fez o seu irmão, Wan Kuok Hong, condenado a cinco anos e seis meses de prisão. Quando o juiz afirmou que os bens dos nove arguidos condenados seriam confiscados pelo erário público Wan Kuok Koi gritou «isto não pode ser» em cantonense.
Alguns dos familiares dos arguidos nomeadamente a mãe e a irmã de Dente Partido gritaram frases como «os juizes estão todos comprados» durante o julgamento e, à saída, foi o caos com as mulheres a chorarem e o arguido absolvido a gritar quando lhe colocaram as algemas, que em seguida foram retiradas.
Os advogados de defesa afirmaram já a intenção de recorrer da sentença tanto mais que consideram em geral que as condenações foram exageradas em relação às provas. Estas, segundo tanto Francisco Nicolau advogado do irmão de Wan Kouk Koi, como Pedro Leal, advogado de dois dos arguidos, foram baseadas em testemunhos que não presenciaram os crimes mas que apenas ouviram dizer que os arguidos os cometeram.
Lembre-se que o advogado de Wan Kuok Koi, Pedro Redinha, abandonou o julgamento depois de os nove advogados terem pedido a substituição do juiz presidente, que não foi autorizada pelo Tribunal Superior de Justiça. Wan foi representado por um funcionário judicial.

 

Transição de Macau: as questões pendentes

A menos de dois meses da data da transição de Macau para a República Popular Chinesa algumas questões continuam por resolver.
A que mais desentendimentos tem causado nestes últimos tempos é a da entrada de tropas chinesas em Macau antes da data da transferência. O texto da Declaração Conjunta Luso-Chinesa de 1987, nada diz sobre o estacionamento de tropas e a Lei Básica apenas refere que a defesa do território fica a cargo do governo chinês após 20 de Dezembro. Note-se que Portugal não tem guarnição militar em Macau desde 1975. Jorge Sampaio tem dado a entender que não haveria cedências de Portugal neste ponto. No entretanto falou-se que, durante esta recente visita do presidente Jiang Zemin a Portugal, este pressionaria Sampaio no sentido de permitir a entrada de um pequeno contingente antes de 20 de Dezembro. Esta possibilidade poderá resultar de uma adenda ao texto da Declaração Conjunta, no sentido de permitir a entrada de algumas de dezenas de soldados do Exército de Libertação Popular antes da transição para prepararem a instalação de uma guarnição. Recorde-se que a decisão de Jiang Zemin visitar Portugal só foi tomada após o anúncio da visita a outros países. Esta cedência de Portugal pode estar na origem da visita.
Entretanto chegaram já a Zhuhai, a região chinesa adjacente a Macau, 150 dos 800 a 1000 soldados que entrarão em Macau na madrugada de 20 de Dezembro.
O jornal de Hong Kong Apple Daily, referia há alguns dias que se Portugal não permitir o envio de um destacamento avançado, 200 soldados à civil serão colocados em empresas chinesas sediadas no território antes da data da transferência.

Estrangeiros na sua própria terra

Uma questão com algumas pontas soltas é a da nacionalidade. A lei chinesa não contempla a dupla nacionalidade pelo que todos os cidadãos de origem chinesa serão automaticamente considerados chineses, ainda que os 110 mil que possuem nacionalidade portuguesa possam fazer uso do seu passaporte como documento de viajem. Quanto aos macaenses, de nacionalidade portuguesa, poderão optar pela nacionalidade chinesa se quiserem participar na administração pública de Macau, uma vez que só chineses o poderão fazer. Porém a Assembleia Nacional Popular Pequim ainda não decidiu quando poderão fazer essa opção. Se conservarem a nacionalidade portuguesa, serão estrangeiros na sua própria terra e de cada vez que visitarem a China, onde alguns têm negócios, terão de pedir e pagar um visto.
Esta questão prende-se com a questão do estatuto de residente. Não está ainda determinado se, como e quando os portugueses de Macau terão de fazer prova de que habitam o território há mais de sete anos. Actualmente qualquer português tem direito ao Bilhete de Identidade de Residente.
O estatuto da língua portuguesa está também por precisar. Até 1992 foi a única língua oficial mas a partir desse ano a língua chinesa foi elevada à mesma qualidade, se bem que muita da documentação da administração tal como as leis só recentemente fossem traduzidas. A Lei Básica afirma que as duas línguas terão o mesmo valor por mais 50 anos. No entanto ainda não está regulamentado ao nível do Grupo de Ligação Conjunto Luso Chinês (GLC) qual será o estatuto da língua portuguesa, pelo que, tendo em conta que mais de 97 porcento da população fala chinês, aquela pode vir a ser apenas língua oficial no papel.
Algumas questões relativas à organização judiciária ficaram também por acordar no GLC, nomeadamente a instalação de um tribunal de última instância. Esta não aconteceu a instâncias das autoridades chinesas que, tal como aconteceu em Hong Kong, pretendemque seja o futuro governo da Região Administrativa Especial de Macau a criar o orgão máximo da futura justiça em Macau.

 

 

O tio Stanley

Filho de boas famílias, já foi tão pobre que não tinha dinheiro para um chá. Porém, com a ajuda de uma terra chamada Macau Stanley Ho transformou a adversidade em fortuna

É considerado por alguns o verdadeiro governador de Macau, mas outros preferem chamar-lhe, mais afectuosamente, tio Stanley. Isto, porque a sua perícia e visão enquanto homem de negócios muito contribuíram para tornar Macau naquilo que é hoje e porque as suas empresas são a base de sustentação do território, contribuindo para mais de 50 porcento do orçamento da administração e dando emprego a um quarto da população, directamente, através de um imposto sobre 31.8 porcento dos lucros do jogo, ou indirectamente.
Para além dos casinos e das suas próprias companhias, Stranley Ho participa ainda em muitos outros sectores da vida económica do território, quer através das contrapartidas estipuladas no contrato de jogo, quer por iniciativa própria, investindo muitas vezes em negócios condenados como foi o caso da Teledifusão de Macau (TDM) ou dos armazéns Yao Han.
No primeiro caso, quando o abandono do grupo Maxwell/Imaudio pôs em causa a viabilização da TDM foi Ho quem comprou a parte reservada aos privados, salvando assim a única companhia de rádio e televisão do território. Também quando uma companhia japonesa resolveu fechar o centro comercial Yao Han foi o magnata que salvou centenas de postos de trabalho, adquirindo o negócio e fazendo-o florescer.
Entre as contrapartidas o homem que detém o monopólio do jogo ficou obrigado contam-se a construção de habitação social, dragagens e a organização de espectáculos e iniciativas culturais. Stanley Ho costeia ainda o funcionamento de 19 escritórios dos Serviços de Turismo, espalhados pelo mundo, e participou na construção da nova Ponte da Amizade e do Aeroporto Internacional de Macau, tendo pago ainda metade do Centro Cultural.

Investimentos internacionais

O rei do jogo é o principal accionista da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) a companhia que em 1962 ganhou a concessão do monopólio do jogo em Macau, detém 9 casinos no território, as corridas de cavalos e galgos, uma frota de 32 embarcações que fazem a carreira entre Hong Kong e Macau, hoteis, participações na banca e em companhias imobiliárias e de construção. Fora de Macau tem interesses no Vietnam, Coreia do Norte, China, Filipinas, Canadá e Espanha entre outros países. Em Hong Kong a sua principal frente é a Shun Tak Holdings, em franca expansão apesar da crise asiática, através da aquisição de acções em propriedades comerciais, residenciais e de retalho. Em Portugal detém os Casinos do Estoril e da Póvoa do Varzim, os hotéis Estoril-Sol e do Guincho, duas imobiliárias, o Complexo da Boavista no Porto e a Sociedade Gestora do Alto do Lumiar e tem ainda acções no Crédito Predial Português.
Só em Macau a STDM tem cerca de 30 empresas. A última coqueluche do tio Stanley é uma torre de 338 metros situada nos lagos Nam Van, mais um projecto que Ho ajudou a desentalar depois da a companhia Construções Técnicas ter falido. A torre que será a oitava mais alta do mundo estará pronta em Março de 2000.

Família falida

Considerado pela Forbes como um dos 200 homens mais ricos do mundo, Stanley Ho, 78 anos, é o exemplo acabado do self made man.
Descendente de uma das mais prestigiadas e abastadas famílias de Hong Kong, a sua história familiar está directamente ligada aquela de Hong Kong. Porém devido a um revés da fortuna, quando jovem, Stanley Ho chegou a conhecer a pobreza e a perda de face. O seu avô Ho Fook era agente da Jardines, a mais imprtante empresa de Hong Kong, e os filhos seguiram-lhe os passos. Uma bancarrota liquidou o empório da família e dois dos seus tios suicidaram-se. Apenas o seu tio-avô sir Robert Ho Tung sobreviveu. A família deste viria a adoptar o nome Hotung para se demarcar dos familiares falidos.
O pai de Stanley Ho envergonhado, fugiu para Saigão levando os seus irmãos e deixando-o com a mãe e as irmãs em Hong Kong. Da mansão familiar mudaram-se para uma casa emprestada, onde, um dia, quando tinha 13 anos, a mãe, Flora Ho, o instigou a estudar e a ganhar uma bolsa de estudo, o que veio a conseguir. No colégio jesuíta onde fez o liceu chegou a ser o melhor a ciências, talvez não tanto por empenho mas porque estudar era o único divertimento que podia sustentar. Não podia praticar desporto pois não podia nem comprar uma bola de ténis, não podia beber sequer um chá ou café fora da escola e a mãe não tinha dinheiro para o autocarro para o visitar ao fim de semana.
Desses tempos ficou-lhe a persistência e um certo grau de sobriedade e nunca os lamentou. Os filhos de famílias ricas raramente são bem sucedidos nos estudos, chegou a dizer. Quanto à mãe, que nessa altura chegou a ver empenhar as joías, morreu de tuberculose, em 1951, sem ter o prazer de ver o filho formado, uma vez que não chegou a acabar o último ano do curso da Faculdade de Ciências da Universidade de Hong Kong devido à invasão japonesa, em 1941. Mas morreu contente de o saber já nessa altura um dos mais prestigiados homens de negócios da colónia.

Refugiado em Macau

Durante a Guerra do Pacífico Stanley Ho combateu em Hong Kong, como telefonista na brigada contra ataques aéreos, ao lado dos ingleses. Quando os japoneses invadiram a colónia britânica, pediu refúgio a um tio que vivia em Macau. Chegou ao território do Santo Nome de Deus com 19 anos e dez patacas no bolso.
O tio arranjou-lhe uma entrevista com o governador e conseguiu o emprego de secretário da Cooperativa Macau Lda. cujo capital era em parte nipónico. Por isso aprendeu japonês e português. Pouco depois estabeleceu uma empresa de importação e exportação por conta própria e nunca mais parou de enriquecer. Costuma dizer que aos 20 anos já era milionário.
A sua ligação a Portugal vêm-lhe do casamento com a macaense Clementina Leitão. Em visitas à família desta em Portugal Stanley Ho apaixonou-se pelo país onde comprou casas e quintas e onde mais tarde investiu no jogo e noutros negócios. Porém, a dramática morte do seu único filho (na altura) Robert, em 1981, nas estradas de Cascais, ao volante de um dispendioso Bentley onde seguia com a jovem esposa, afastou-o durante algum tempo do luso país. Talvez por isso só recentemente tenha decidido construir uma casa no terreno que possui na Quinta da Marinha.
Quanto à sua esposa, dizem, nunca se recompôs da morte desse filho mimado que amava Portugal, os touros e a velocidade.

Esposas e danças de salão

O facto de pouco revelar sobre a sua vida privada, tornou o milionário de Macau um homem misterioso, o que, combinado com o seu porte digno, o olhar intenso e a voz bem modulada o fizeram ainda mais atraente. Não desprezando o inevitável charme da sua fortuna, foram estas qualidades que atraíram muitas mulheres e, para além da esposa oficial, são-lhe conhecidas várias outras. A última, Angela Leung, Hon Ki, tem apenas 37 anos e em Junho passado deu à luz o 17º rebento do magnata, uma menina. Conheceram-se durante um concurso de danças de salão um dos hobbies preferidos de Ho que, apesar da idade, continua a ser um exímio bailarino.
Se bem que conte com todas as suas «concubinas», à maneira tradicional chinesa, ainda hoje Stanley Ho não deixa de pôr os olhos demoradamente numa mulher bonita, quando vê uma...
O desporto é outra das suas actividades preferidas se bem que tenha despertado tarde para ele: quando tinha 40 anos chegou qause aos cem quilos que decidiu eliminar através da natação, do ténis, da caça e do tiro.
Tanta vitalidade vêm-lhe de uma vida regrada: levanta-se cedo, faz exercício, come frugalmente, não bebe bebidas alcoólicas ou café e não fuma. E, por estranho que possa parecer, não joga.
«Mr. Macau» como lhe chamam em Hong Kong, onde vive grande parte do tempo, chegou a anunciar que se retiraria aos 81 anos, precisamente quando o contrato de concessão do jogo será renegociado. Porém, mais recentemente ,disse que esperaria até que o seu filho varão, de 15 anos, nascido depois da morte de Robert, tivesse idade para assumir os seus negócios.
Entretanto duas das suas muitas filhas, Pamsy e Daisy, asseguram a gerência da Shun Tak Holdings e de outros dos seus interesses económicos espalhados pelo mundo.

15/11/99