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Conto de Natal da minha mãe, Lucília      saiu no SAPO! clic!   

Texto interactivo do Rui Viana (funciona em Explorer e Mozilla Firefox)

«Testículo» da Sofia Filipe

Conto da Guida Lázaro

Os quadros da Madalena Raimundo

 

Saudades do Natal humilde da minha infância

Lembro-me de que quando era miúda, ainda o meu pai era vivo, os nossos natais humildes e pobres, eram, apesar de tudo uma festa.

Na véspera, já ele não ia ao mar. A ceia dessa noite, era realmente ceia, pois prolongava-se até mais tarde e já começava tarde. Agora chamamos jantar à refeição da noite, mas, naqueles tempos, era a ceia a última refeição do dia. A minha mãe tinha andado atarefada todo o dia, e tinha já amassado a alguidarada de "filhós", como lhe chamávamos: farinha, água, fermento, abóbora, um pouco de águardente e uns salpicos de açúcar.

Enquanto a massa levedava, agasalhada num canto da chaminé, o fogareiro ao nosso lado ia cozendo as batatas com as couves e bacalhau.

A tradição da casa dos meus avós maternos era esta. A dos meus avós paternos não inclui as couves nem o tempero com azeite, mas só as batatas e o bacalhau, que eram temperados com um molho à espanhola, feito na altura.

Não admira, eram ambos descendentes de espanhóis.

Eu que era pequena, embirrava com couves, alinhava com meu pai. O meu irmão alinhava nos gostos da mãe.

Quando o jantar (ceia) já estava pronto, estava a massa das filhós para fritar. Então era engraçado; não nos sentávamos à mesa como todos os dias; a minha mãe punha o fogareiro a carvão (mais tarde a petróleo) no chão da cozinha com o tacho do azeite a fritar e nós sentávamos à volta nas cadeirinhas pequeninas. O pai e a mãe iam vigiando os fritos enquanto todos íamos comendo a ceia, com calma e com o prato em cima dos bancos ou no colo.

Era uma festa encontrar semelhanças com os feitios que tomavam os fritos ao rebolar no azeite a ferver… olha parece um pinto… olha aquele parece um coelhinho…

Já para as tantas da noite, e se fossem dez e meia ou onze já era tarde, aparecia a avó Henriqueta (materna) que morava ali pertinho, na mesma rua; nós no 100 e ela no 124. Ela dava a provar os fritos dela que eram iguaizinhos aos nossos.

Só nos deitávamos quando os fritos estivessem todos feitos, arrumados numa grande panela de esmalte com tampa, e depois da minha mãe ter arrumado a cozinha.

Para mim a festa era mesmo grande: ter o meu pai em casa, brincar com o cão e deitar tarde…! Que bom.

Eu pensava que Nossa Senhora e S. José, quando Jesus já andasse, também faziam fritos à noite para a festa de Natal.

A festa dos presentes era muito simples lá em casa, onde o dinheiro não abundava. Só eu e o meu irmão é que tínhamos a surpresa de alguma camisola que a minha mãe nos tricotara aos serões enquanto o pai estava no mar e nós já dormíamos. Ia buscá-las onde as escondera e dizia-nos simplesmente para as vestirmos para as levarmos à missa nesse dia de Natal, onde íamos ver o presépio da Igreja e beijar o menino Jesus que o sr. Prior nos apresentava.

Quando o meu pai morreu acabou a festa de Natal em casa; passou a haver apenas o Natal da Igreja. Eu e o meu irmãozito tínhamos saudades da humilde festa da nossa pequenisse, mas tínhamos muito mais saudades do nosso querido pai que partira naquele dia de 10 de Junho de 1940, alegre e cheio de fé para ganhar o nosso pão no mar e a quem só voltámos a ver num caixão, tendo por baixo deitado o nosso cão, que também chorava connosco. Eu ainda não fizera nove anos e o meu irmão tinha seis.

Agora, graças a Deus, toda a gente faz do Natal uma grande festa, naqueles tempos vivia-se com temor pelo que se passava em Espanha. Eram os anos de guerra … o meu pai trazia para casa os seus receios e quando vinha da pesca contava o que lhe narravam os seus colegas e amigos espanhóis, com quem contactava no mar.

Na próxima saída, lá ia o meu pai com alguns embrulhos para entregar aos companheiros no alto mar, longe das vistas das autoridades. O meu pai faleceu em 40 e ainda por dois ou três anos depois, a minha mãe arranjava embrulhos de roupas que comprava e amarrotava para poder enviar aos pescadores amigos espanhóis que continuavam a perguntar aos camaradas do Dili, saudosos do Cristóvão Vianês, pela família dele e iam narrando as nossas dificuldades.
Passaram-se depois muitos natais sem festa em casa. Lembrávamos o nascimento de Jesus na catequese da Igreja. Lá fomos perdendo o significado do Natal e seus ensinamentos. Pouco a pouco esquecemos de ligar esta festa à ceia do 24 de Dezembro. A divina família estava cheia de luz no nosso coração, mas a nossa vestia de luto.

O tempo tudo cura diz a sabedoria popular… mas, levou tempo!

Casei aos 19 anos e ao formar uma família nova criaram-se novos hábitos. Mesmo com natais faustosos, que correndo os anos eu fui vivendo em casa do seu sogro e, com a partida deste, com os meus cunhados em sua casa, não esqueço e tenho saudades daqueles dois ou três natais que me ficaram na memória, passados à volta do tacho, onde rebolavam os fritos e onde o lume do carvão nos aquecia ... não tanto como o amor do meu pai, da minha mãe e irmãozinho; os quatro juntos e em paz, numa verdadeira família.

Desta família de quatro, só eu cá estou.

Recordo com saudade também os natais em que preparava as surpresas para as minhas filhotas, meu marido, meus cunhados e sobrinhos. Mesmo desta nova família outros foram partindo à medida que a Irmã morte, como dizia S. Francisco, os vinha buscar.

Mas a saudade mais intensa, vinda lá do princípio de mim mesma, e a que deixou marcas mais profundas, continua envolta nas recordações dos natais da minha infância na casa dos meus pais e à volta do rebolar dos fritos no azeite. Saudade da humildade do Natal; saudade dos meus pais, do meu irmão…e saudades de mim mesma … Que santos e belos eram aqueles natais sem enfeites, sem presépios! Nós quatro formávamos um presépio feliz e humilde.

Lucília Januário Gonçalves

 

Noite escaldante q.b.

Prepare-se para uma noite inesquecível, romântica, com jantar à luz das velas e com tudo aquilo que dois apaixonados necessitam para manter, avivar, ressuscitar ou iniciar um relacionamento. Amoroso, claro.

Coloque aquele vestido e aquele perfume... Enfim, torne-se atraente para o seu parceiro. A noite ainda não nasceu e já promete ser longa, muito longa... Siga as nossas dicas e verá nascer a mais escaldante das noites!

Quando o telemóvel tocar, não atenda. Melhor, desligue a chamada "na cara" de quem se encontra do outro lado. Se gostar de si, vai tentar estabelecer novamente o contacto. Nessa altura, atenda e combine um encontro num restaurante, de preferência onde irá rever um amigo. Chegue atrasada. Uma hora ou duas é suficiente para deixar aquele com quem partilha umas beijocas ansioso e à beira de um ataque de nervos. Diga que tal atraso se deveu a um encontro casual com o seu primeiro namorado.

Quando estiver na sua mira um elemento do sexo masculino, cumprimente-o com muito entusiasmo e não diga de quem se trata.

Assim que estiverem a saborear as respectivas sobremesas, fale acerca de algumas das suas relações amorosas do passado e, sobretudo dos homens com quem partilhou determinadas intimidades. A conversa será desviada e, nessa altura, adopte uma postura distraída. O momento seguinte será marcado por uma certa indignação, ao que responderá com divagações. Entretanto, receberá uma chamada o que a fará abandonar a mesa (e a sobremesa) para atender o telemóvel. Volte com um sorriso e inicie a conversa com um assunto fútil. No final do jantar, não se mostre interessada em dividir a conta, alegue uma dor de cabeça e vá para casa, ou não...

Tudo isto poderia ter sido evitado. Como? Boa pergunta! Fazendo um "flash-back" até ao momento em que recebeu a primeira chamada (sim, aquela que rejeitou), iria atendê-la imediatamente, combinaria um encontro num local romântico e simplesmente não apareceria. Claro que a bateria do seu telemóvel acabaria...

Sofia Filipe

 

O conto de alguém que vive mesmo ao lado

O Jorge era o protótipo da boa pessoa. Um bonacheirão de meia-idade, um homenzinho prestável, muito moreno e de sorriso constante nos lábios. Daqueles que desenrascam sempre os outros nas inundações na casa de banho, de cortes de electricidade e de outras pequenas tragédias de trazer por casa. Não conheço ninguém que não quisesse ter o seu nome e contacto apontados na agenda para uma eventualidade dessas. Era sério, seríssimo e ainda por cima levava barato. Era só ligar e lá vinha ele assim que podia, no seu carro carregado de ferramentas que escolhia da garagem improvisada num anexo no quintal de sua casa.

Eu disse que o Jorge era. Mas o Jorge é e continuará a ser o protótipo da boa pessoa. Vive perto de mim, num lar doce lar, que não tem mas que podia ter azulejos (muitos), num bairro de pequenas moradias geminadas.

Se entrarmos pelo portão da sua casa, a porta principal está fechada. Dá acesso ao hall e à sala sempre impecavelmente limpa, com móveis a imitar boas madeiras clássicas e com muitos vidros para guardar os troféus do clube recriativo. Não é para mexer. É por isso que quem lá vai sabe que tem mais possibilidades de se fazer ouvir se entrar pela porta inox na cozinha.

A sua mulher só lá se encontra ao fim da tarde. Trabalha a dias mas ninguém diria. Tem uma pele de porcelana e gosta de manter a aparência de alguém que está bem na vida. É boa pessoa e boa esposa, mas não despretensiosa como o Jorge.

A vida corre-lhes bem, embora com algumas dificuldades. Criaram os filhos. Um está casado e o outro ainda anda no liceu. Há que continuar a trabalhar para suportar os custos. Mas, afinal, tudo podia ser pior. Não se janta fora, nem se vai ao cinema. Os petiscos com os amigos satisfazem qualquer necessidade de maior. Aliás, o Jorge e a mulher são peritos nessa especialidade. Ela cozinha; ele produz o seu próprio vinho e água-pé. É a harmonia plena, essa de darem a provar os seus gostos e habilidades.

À mesa há sempre os petiscos que fazem as delícias de toda a gente. Bons vinhos, belos repastos e está sempre tudo bem disposto. Ela com elas na cozinha e a pôr e a tirar pratos, tachos e panelas na cozinha com porta inox que dá para as traseiras. Ele com eles, a conversar e a beber um copo a mais, mas sem chegar a partir os bibelots de porcelana na sala que só nestas alturas tem gente. Eles e elas numa felicidade difícil de conceber.

Ontem para receber uns amigos deles e meus, que vieram de fora visitá-los, o Jorge e a mulher receberem-nos com as honras do costume. À mesa estavam garrafas de água-pé caseira, a animação do costume, com as amêijoas que os amigos tinham trazido e com os tordos que o Jorge tinha caçado.

"Come, vais ver que vais gostar" - "Já lá vou"- disse eu a e comer amêijoa atrás de amêijoa e a tentar evitar o petisco de se lhe tirar o chapéu. Tive que, enfim, provar o petisco. Não tive hipótese de recusar. E por tanto evitar tocar no repasto tive que ouvir a história das patas, pescoços e asas que jaziam primorosamente cozinhados no prato.

O Jorge e o amigo tinham ido para o Alentejo apanhá-los. Com uma rede japonesa que só se pode comprar em Espanha. Bastou esticarem-na e enxotar os pássaros dos arbustos. Eram milhares a cair na rede. Depois foi só esmagar-lhes a cabeça e pô-los dentro do saco. Tudo com o consentimento do guarda do parque. Foi como nos programas do Discovery. Era como em África. Foi um dos momentos mais importantes da minha vida. Ver os milhares de pássaros a fugir e a passar perto de mim. Só queria ter uma camera de ver no escuro. Eu ria às gargalhadas, disse o Jorge.

Guida Lázaro

 

A pintura da Madalena Raimundo

Pássaros e touro

Touro